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  • Do otimismo à esperança

Do otimismo à esperança

Coletânea de pensamentos do dia a dia
Autor: Jonathan Sacks
SKU: 12538
Páginas: 164
Avaliação geral:

O Rabino Lord Jonathan Sacks é considerado um dos maiores líderes espirituais da atualidade. Durante mais de uma década, ele foi uma das estrelas da rádio BBC de Londres, com seu programa "Reflexões para o Dia". Este livro reúne uma breve e sensível seleção desses discursos, o que o torna uma obra leve e dinâmica, e que tem encantado leitores ao redor de todo o mundo.

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Descrição

O Rabino Lord Jonathan Sacks é considerado um dos maiores líderes espirituais da atualidade. Seus livros e discursos trazem esperança e encorajamento a pessoas de todos os credos, principalmente nos turbulentos tempos em que vivemos, nos quais muitas se sentem ameaçadas pela complexidade e pelos desafios do mundo contemporâneo. Durante mais de uma década, ele foi uma das estrelas da rádio BBC de Londres, com seu programa "Reflexões para o Dia", no qual comentava de modo conciso, lúcido e inteligente os mais diversos assuntos do nosso cotidiano, trazendo aos seus ouvintes insights extraordinários. Este livro reúne uma breve e sensível seleção desses discursos, o que o torna uma obra leve e dinâmica, e que tem encantado leitores ao redor de todo o mundo.

Índice e trechos

Índice

Introdução
Prefácio à Edição Brasileira

A sabedoria de decidir
Comunidade
Escrevendo no Livro da Vida
O portal da esperança
Sem discrição
A sociedade com uma face humana
A jornada para a liberdade
Histórias dos nossos dias de ontem
Uma chama de esperança
Rembrandt e o Prêmio Turner
Dois livros da vida
O que ensinamos às crianças
Quando as palavras falham
A opção por ter filhos
O Gueto de Varsóvia
A paternidade como um privilégio
A paz como um paradoxo
Residentes temporários
A captura de Saddam Hussein
Por que o terror sempre fracassa?
O jogo da culpa
Pensando em termos globais
Deixem-me em paz ou mantenham-me informado?
Lucros e profetas
O mundo de cabeça para baixo
Spike
A coragem de viver com a incerteza
Perdão
Arriscando o salto
A era da insegurança
O mundo que construímos amanhã
Manter-se jovem
Público ou particular?
Estabelecendo a paz
Do ponto de vista do espaço
Entre a justiça e a vingança
Correr para parar
Dançando com o passado
Captando a reflexão para o dia
O direito de ser diferente
A vitória que dura
Terror em Mombasa
Transmitindo nossas esperanças
A fé chamada casamento
Arrependimento
Dia nacional do perdão
George
Falando às claras
Filhos de Abrahão
Comendo e nos reunindo
Fazendo nossa parte
A educação e a dignidade humana
Entre dois males
O choro de uma criança
A ciência como uma bênção
É necessário mais do que a guerra para assegurar a paz
Diga a seus filhos
Sobre exércitos e escolas
Kindertransport
Elogiando os professores
A coragem de perdoar
A luz de casa
Reverência, responsabilidade, restrição
Abandonando o passado
Abandonando o ódio
O herói sem túmulo
Pais
Terror em Madri


*  *  *

O que aconteceu com o arrependimento?

O que aconteceu com o arrependimento? Faço esta pergunta porque acabamos de começar a contagem regressiva para os dias mais sagrados do judaísmo: Rosh Hashaná, o Ano Novo, que começa hoje à noite, e Iom Kipúr, nosso Dia do Perdão, que é o momento no qual procuramos aqueles a quem possamos ter causado algum mal e pedimos seu perdão, para que, assim, Deus possa nos perdoar também.

Foi a antropóloga Ruth Benedict que apontou a diferença entre as culturas de vergonha e as culturas de culpa. Numa cultura de vergonha, o que importa é a forma como as outras pessoas veem você, sua imagem pelos olhos delas. Hoje em dia, a nossa é uma cultura de vergonha, e é por isso que existem tantos relações públicas e tanta preocupação com nossa imagem.

Culturas de culpa não se preocupam com as aparências. Elas se baseiam na voz interior da consciência, que nós costumávamos chamar de voz de Deus. Numa cultura de culpa, não importa como os outros nos veem. O que importa é fazermos a coisa certa. O que conta não é a opinião alheia, mas se estamos em paz conosco. O real problema com as culturas de vergonha é que elas são implacáveis. Uma vez que você tenha caído em desgraça, acabou. Não tem mais volta. Assim, o mais importante numa cultura de vergonha é tentar esconder os erros. Isso nunca aconteceu, ou, se aconteceu, não fui eu, e se fui eu, não foi tão mau assim.

Mas nas culturas de culpa há sempre um caminho de volta por causa do arrependimento e da pessoa chamada Deus. Deus perdoa. Acho que esse foi o mais importante dos conceitos singulares que a Bíblia Hebraica já deu ao mundo. Apesar de errarmos muitas vezes, sempre podemos recomeçar. Ao nos conceder o livre arbítrio, Deus nos deu a permissão de cometer erros. Ele nunca pediu que fôssemos perfeitos. Tudo o que Ele pediu foi que tentássemos fazer o melhor que pudéssemos, que assumíssemos nossos erros quando os cometêssemos e melhorássemos sempre. Quando acreditamos num Deus que perdoa, não importa se as outras pessoas perdem a fé em nós. Não importa nem se perdemos a fé em nós mesmos. Porque em algum lugar Alguém tem fé em nós e Deus nunca perde a fé.

Eu gostaria de ver o arrependimento voltar. Pensem na diferença que faria se os políticos, homens de negócios ou qualquer um de nós pudéssemos simplesmente dizer "me desculpe, eu errei", em vez de fingir que acertamos. Não haveria muito mais honestidade na vida pública e talvez na vida privada também se realmente nos lembrássemos de que, independente do que tenhamos feito, Deus nos ajuda a começar de novo?

Prefácio

INTRODUÇÃO

Falando com franqueza, esse programa é um dos elementos mais inusitados do dia a dia britânico. São quase oito horas da manhã e lá está você passando geleia no pão ou preso no trânsito, se preparando para enfrentar mais um dia quando, em meio às últimas notícias sobre um terremoto, discussão política ou ataque terrorista, sai do rádio uma voz inocente e descaradamente alegre fazendo um sermão. Deveria ser o suficiente para te fazer querer jogar tudo para o alto ali mesmo.

Mas eu sou um dos fãs de Reflexões para o Dia, aquela pausa não comercial na metade do Today, o jornal matinal da Rádio BBC4. Eu sempre adorei o programa Today desde os tempos em que Jack de Manio era o apresentador e espalhava a confusão ao dar a hora errada, fazendo uma significativa fatia da nação pensar que ou deveria voltar para a cama ou estava desesperadamente atrasada para o primeiro compromisso do dia. Se ele podia errar, o que dizer de nós? Era uma aula sobre como manter o senso de proporção.

E Reflexões para o Dia trata justamente de como manter o senso de proporção. Acho que é um resquício da época em que a BBC, ainda observando seu legado reithiano,* se considerava a consciência da nação, certificando-se de que houvesse um ato de louvor no horário nobre do rádio todos os dias, exceto no domingo à noite (houve uma época em que a televisão matinal não existia), para que as pessoas não tivessem desculpa para não ir à igreja. 
Daí Reflexões para o Dia, uma reflexão religiosa em meio a alguma notícia das últimas 24 horas, para nos lembrar de que, além de notícias, existem também as (e por que não criar um termo específico?) olds:* a sabedoria do passado, um eco da eternidade, uma maneira de se afastar do ritmo e dos empurrões dos dias de hoje e observar os eventos de uma perspectiva mais distante - o que é bom fazer de vez em quando.

Afinal, existe aquela pequena questão que é a tentativa de entender o sentido do que está acontecendo no mundo lá fora, de enxergar a história de um modo diferente daquele proposto por Joseph Heller, autor de Ardil 22: "um saco de lixo de coincidências aleatórias espalhadas pelo vento". O Homo sapiens é um animal que procura sentido nas coisas, razão pela qual existe o fenômeno que chamamos de religião - a maior tentativa coletiva da humanidade de encontrar o sentido desta breve e tempestuosa sequência de dias, muitas vezes recheada de dor, que chamamos de vida.
Hegel, o filósofo muitas vezes impenetrável, disse uma vez que o homem moderno lê os jornais como um substituto para a oração. Se assim for, é um substituto bem pobre, porque a oração pelo menos incorpora, de alguma forma, a fé de que, pelo menos de uma perspectiva celestial, as coisas têm sentido, enquanto os meios de comunicação não têm esse comprometimento. Uma dieta composta exclusivamente de notícias tem poucas chances de nos convencer de que existe um script do qual fazemos parte, um plano de cujo desdobramento somos testemunhas, alguma narrativa que nos permita compreender o que está acontecendo e por quê.

É por isso que há tantos anos gosto de fazer Reflexões para o Dia. É uma forma de dizer: "Espere aí, gente, vamos fazer uma pausa, parar e pensar no que tudo isso significa!" Como nossos antepassados o entenderiam? O que nossos netos pensarão a respeito quando olharem para trás? E como isso se encaixa nesse drama cósmico no qual fomos forçados a entrar, querendo ou não, pelo tempo que estivermos aqui para nos importarmos.
Acredito - e na verdade esta é uma das maiores contribuições da Bíblia para a civilização, algo totalmente revolucionária à sua época - que o tempo é uma narrativa; que a história é um diálogo contínuo entre nós, nossos instintos mais básicos e nossos mais altos ideais; que ele conta uma história, se nos esforçarmos o suficiente para decodificá-la. Também não é por acaso que contamos histórias, entre as quais as mais importantes são sobre de onde viemos, aonde vamos e por quê. Sem isso, a vida não tem sentido.

É claro que nesta era secular sem precedentes, muitos acreditam exatamente nisso: que a vida não tem sentido e que as notícias - a roda gigante do mundo, girando infinitamente, um London Eye* global - são tudo o que existe. Esta visão é certamente coerente. É antiga, bem como moderna (o filósofo grego Epicuro também pensava assim, e nos alertou para não alimentarmos esperanças, porque elas sempre acabam em desilusão). Mas, para mim, isso é estar surdo aos tons. Há música sob o ruído, ou seja, sob a superfície, mas temos de parar para ouvi-la. A religião é mais do que um sistema de crenças. É um ato de escuta focada no roteiro do qual somos os heróis e, junto com Deus, os coautores.

Afinal, isso era o que Tolstoi pensava, e continuou afirmando através daquele que talvez tenha sido o mais grandioso romance já escrito, Guerra e Paz. Ele acreditava que as pessoas no centro da batalha nunca sabiam o que estava realmente acontecendo. Para tanto, era preciso o olhar de um romancista. Mais tarde, ele chegou à conclusão de que o necessário era o olhar da fé, e prontamente desistiu de escrever romances e dedicou-se às boas obras e panfletos religiosos. Uma das coisas boas de Reflexões para o Dia é que é, sem dúvida, mais curto que Guerra e Paz. (Tem duração de dois minutos e quarenta e cinco segundos. Costumava durar três minutos, mas a BBC decidiu encurtá-lo, alegando que ninguém consegue mais se concentrar por três minutos. E isso já merece uma Reflexão.)

Os anos dos quais essas reflexões foram tiradas (de 1995 ao primeiro dia de 2004) foram inquietantes e perturbadores. O ano 2000 testemunhou o colapso do processo de paz no Oriente Médio e uma campanha de atentados suicidas que deve figurar entre as mais destrutivas e autodestrutivas da história daquela terra conturbada. Um ano depois veio o 11 de Setembro, um ato de violência calculada, que derrubou mais do que as Torres Gêmeas de Nova York. Ele acabou com a era de otimismo cauteloso que acompanhou o fim da Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim, o colapso do Apartheid na África do Sul e - pelo menos no Ocidente -o mais longo boom econômico de que há memória.

Desde então aconteceram guerras no Afeganistão e no Iraque e as derrubadas do Taliban e de Saddam Hussein - vitórias em certo sentido bem-sucedidas, mas inseguras, se de fato se provarem vitórias. Aprendemos que é fácil derrotar tiranos, mas muito mais difícil construir sociedades livres com as autorrestrições e noções de civilidade que elas requerem. A "nova ordem mundial" se parece de forma suspeita com a velha desordem mundial descrita pela Bíblia como o estado da humanidade antes do Dilúvio. E este foi memoravelmente caracterizado por Hobbes em Leviatã como uma guerra de "todos contra todos", na qual existe "um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta".*

Hobbes escrevia nas décadas de 1640 e 1650, tendo como pano de fundo as guerras religiosas que haviam lançado a Europa em turbulência durante um século. Talvez este seja nosso maior medo à medida que encaramos o século 21: de estarmos diante de outra era de guerras religiosas (ou como Samuel Huntington as chama, "choques de civilizações"), mas desta vez com armas de poder destrutivo muito maior. De fato, uma coisa que o 11 de Setembro fez foi nos lembrar de que até mesmo os mais inocentes objetos podem ser usados para fins assassinos. Antes disso, quantos de nós imaginávamos que aviões jumbo, arranha-céus e estiletes escolares seriam armas letais, capazes de causar a morte de milhares? Se alguma coisa foi aprendida com aquele dia, é que o mal não está nos objetos do mundo externo, mas sim na mente humana e na sua capacidade para o ódio. Freud estava certo: a civilização é sustentada na psique, a palavra que significa "a alma", e na eterna batalha entre o que ele chamou de Eros e Tanatos, o "princípio do prazer" e o "instinto da morte". Na verdade, as palavras que ecoam com mais força daquele dia 11 de Setembro, tinham sido escritas 62 anos antes por W.H. Auden (em seu poema "1º de setembro de 1939"):

O inominável cheiro da morte
Conspurca a noite de setembro...
Tudo que tenho é a voz
Para desfazer a mentira velada,
A mentira romântica no cérebro,
Do mundano homem das ruas
E a mentira da Autoridade
Cujos prédios apalpam o céu:
Não existe o Estado
E ninguém existe sozinho...
Devemos amar uns aos outros ou morrer.

Nas linhas finais de seu poema, Auden define sua obrigação enquanto poeta, que certamente serve para todos nós (sei que serve para mim): "Poderia eu, composto da mesma matéria que eles/ De Eros e de pó,/ Restrito pelas mesmas coisas/ Negação e desespero,/ Exibir uma chama afirmativa."


Foi o que tentei fazer em muitas dessas Reflexões - articular uma esperança, "mostrar uma chama afirmativa". Não há nada de inevitável ou lógico na esperança. Há culturas em que ela não existe. Não há nenhuma razão - com base na lei científica ou na experiência histórica - para acreditar que amanhã será melhor do que hoje (minha esposa Elaine tinha um cartaz na parede que dizia: "Eles disseram: "Anime-se - as coisas poderiam ser piores". Então eu me animei... e com certeza elas pioraram"). Como a chamou o sociólogo Peter Berger, a esperança é um sinal de transcendência - algo que conversa conosco de um lugar além de onde estamos. Se eu tivesse de definir a tarefa a que me propus nos últimos quatro anos, diria que era ser agente da esperança.

A esperança é, em última análise, uma emoção religiosa. Ela nasce da convicção de que somos mais do que uma cega concatenação de "genes egoístas". Essa pode ser uma das maneiras de descrever o que somos, mas não é tudo o que somos, e acreditar no contrário é estar surdo para a música da própria vida.

Filósofos, tanto antigos quanto modernos, algumas vezes se pronunciaram como se fosse um ato de coragem intelectual acreditar que não há significado para a existência humana, que somos poeira cósmica em um universo cego às nossas esperanças, indiferente às nossas orações. Eu, no entanto, nunca tive certeza de que o niilismo é uma postura mais corajosa que a fé - fé que a própria existência do universo e o surgimento de um ser capaz de perguntar "por quê?" testemunham, em sua pura improbabilidade, para algum propósito real (ainda que indubitavelmente obscuro).

Estamos aqui, creio eu, porque Alguém queria que existíssemos; Alguém que nos criou do amor, que conhece nossos medos, ouve nossos clamores e acredita em nós mais do que acreditamos em nós mesmos, nos erguendo quando caímos, nos dando força quando a força falha, que perdoa nossos erros quando reconhecemos que foram erros, que nos segura em Seus braços eternos e que nunca nos rejeita, mesmo que outros o façam. E se tudo isso se revelar falso, então eu prefiro ser acusado de assumir o risco de acreditar no melhor da existência do que de ter me refugiado na segurança de acreditar no pior.

E se tudo isso é metafísico demais, deixe-me colocar de outra forma. Um tempo atrás nosso escritório alugou um carro com GPS. É um dispositivo brilhante. Você digita o destino e uma voz educada e um mapa lhe orientam por qual caminho ir. Mas os motoristas judeus sempre sabem mais - um atalho aqui, um desvio ali ("Como o computador pode saber mais do que eu, que cresci aqui?"). O que me fascina é a forma como o dispositivo responde. Ele faz uma pausa por um momento para assimilar o fato de que suas instruções foram ignoradas. Em seguida sinaliza: "Recalculando a rota" e - vejam só - ele cria uma nova rota com base em sua posição atual. É a este milagre eletrônico da persistência que eu devo uma das grandes lições da vida: que onde quer que você esteja e onde quer que queira estar, há uma rota entre aqui e lá. Se isso não for motivo para esperança, não sei o que pode ser. E foi isso que, de uma forma ou de outra, eu quis expressar com estas Reflexões.

No entanto, às vezes temos de criar a esperança. Ela não está lá esperando para ser simplesmente apanhada como a fruta de uma árvore que outra pessoa plantou. E aqui eu tenho de ser sincero quanto ao medo mais profundo que tem me assombrado nos últimos três anos e roubado meu sono em muitas noites agitadas.

O século 21 testemunhou - se não na Grã-Bretanha, em muitas outras partes do mundo - um ressurgimento da religiosidade. As razões são complexas, mas pelo menos uma parte da história é contada de forma simples. Em uma época de mudanças, buscamos refúgio nas coisas que não mudam. Em tempos de confusão temos sede de certezas. Os termos da política mudaram. Se o século 20 foi a Era da Ideologia, o século 21 será visto como a Era da Identidade na qual as pessoas desiludidas com a política se voltaram para as questões mais fundamentais de todas: "Por que estou aqui?" e "Quem sou eu?"

Estas são questões que não podem ser respondidas pela política ou pela economia, que nos dizem o que e como, mas não por que ou quem. A busca por significado e identidade sempre acaba em religião. Mas no próprio ato de fornecer uma solução, ela também cria um problema. A religião une as pessoas em uma rede de "pertencimento". A palavra em si vem de uma raiz latina que significa "ligar". Ela transforma "eu" em "nós" Ela funde individualidades díspares em uma única comunidade. Mas o "nós" é definido por contraste com ?eles? ? os que não são como nós, cujos ideais, valores, rituais e narrativas são diferentes dos nossos. A religião divide tanto quanto une. Dizemos: "Se pelo menos o resto do mundo fosse como nós - nós que valorizamos o amor e a paz, o perdão e a fraternidade." Mas o mundo não é como nós, nem será até o fim dos tempos. A valorização da diversidade nunca foi o forte da religião.

No passado isso importava menos do que hoje. Na maior parte da história, muitas pessoas conviviam em estreita proximidade com aqueles com quem compartilhavam uma cultura e um modo de vida. Isto mudou. Através das comunicações globais, da facilidade de viajar, das migrações e da fragmentação da cultura, agora vivemos na presença contínua e consciente das diferenças. O que, para muitas pessoas, é profundamente ameaçador.
O resultado é o fundamentalismo, especificamente o uso da violência para impor nossa visão sobre os outros. Os resultados podem ser encontrados em zonas de conflito em todo o mundo. Vivemos uma época em que, nas palavras de Jonathan Swift, "temos religião suficiente para nos fazer odiar uns aos outros, mas não o suficiente para fazer-nos amar uns aos outros".

Isto pode parecer bem distante de Reflexões para o Dia, mas estranhamente, não é. Reflexões pede a seus colaboradores uma coisa muito rara hoje em dia. Ele convida cada um de nós, seja qual for a nossa fé, a falar com pessoas que não são da nossa fé. Ele nos pede para difundir, não fundir. Ele nos obriga a falar de forma inclusiva, respeitando a diversidade de quem ouve. É um convite permanente à generosidade de espírito. Ele nos lembra de que, apesar de nossas crenças serem muitas, o nosso destino é um só.

E, sendo rabino, eu não poderia terminar sem ilustrar esta lição com uma história. Esta é verídica. No final de 1990, o Dr. George Carey havia sido eleito, mas ainda não tinha tomado posse como Arcebispo de Canterbury. Eu tinha sido eleito, mas ainda não tinha tomado posse como Rabino-Chefe. Não sei como, mas uma pessoa descobriu que ambos éramos torcedores apaixonados do Arsenal. Essa pessoa entrou em contato conosco e perguntou se queríamos que nosso primeiro encontro ecumênico ocorresse em seu camarote no Estádio Highbury - uma partida no meio da semana por razões religiosas óbvias. Ambos respondemos com entusiasmo que sim.

O grande dia chegou. Faltou pouco para ser o próprio Paraíso. Chegamos ao camarote e fomos levados para conhecer os jogadores. Saímos e ficamos sob as luzes dos holofotes, no gramado sagrado para entregar um cheque para caridade. Os alto-falantes anunciaram nossa presença. Dava para ouvir o burburinho em torno do campo.

Independente do lado que se escolhesse na aposta teológica, naquela noite o Arsenal tinha amigos nas altas esferas. Eles não poderiam perder. Um tog nachtiger, como minha avó dizia: Quem dera fosse assim. Naquela noite, o Arsenal entrou em campo para sua pior derrota em casa em 63 anos. Eles perderam por 6 a 2 do Manchester United. O Arcebispo ficou fora de si de agonia.

No dia seguinte, um dos jornais nacionais publicou a história e concluiu que se, mesmo combinadas, as orações do Arcebispo de Canterbury e do Rabino-Chefe não conseguiram garantir uma vitória para o Arsenal, isto não provava de uma vez por todas que Deus não existe? No dia seguinte eu respondi dizendo: Ao contrário, o que isso prova é que Deus existe. Só que Ele torce para o Manchester United!

Que é uma maneira de dizer que se nos lembrarmos de que Deus está do nosso lado, mas que Ele também está do outro lado, teremos uma chance de perceber que aos olhos do Céu estamos todos do mesmo lado, o lado da humanidade. O jogo é mais importante do que os times e o que está em jogo envolve a todos nós. Devemos, como disse Auden, amar uns aos outros ou morrer.

Sobre o autor

Rabino Lord Jonathan Sacks foi Rabino-Chefe da Grã-Bretanha e Comunidade Britânica. Educado em Cambridge e Oxford, lecionou em universidades e liderou congregações na Inglaterra, em Israel e nos Estados Unidos, e era reconhecido como um dos maiores líderes da nossa era. Realizou uma vista ao Brasil em março de 2013. Infelizmente, faleceu em novembro de 2020. 


Foi uma das maiores autoridades contemporâneas em moral e autor de 

Uma letra da Torá 

Para curar um mundo fraturado 

Celebrando a vida - esgotado

A dignidade da diferença 

Tempo futuro

Do otimismo à esperança

todos publicados no Brasil pela Editora Sêfer. 


Dele, estão disponíveis para download gratuito: 

Cartas para a próxima geração - Reflexões para Iom Kipúr 

Cartas para a próxima geração 2 - Reflexões sobre a vida judaica  

A arte de questionar

no blog da Editora e Livraria Sêfer.

Avaliação dos Clientes

    • muito lindo
    • 05 de novembro de 2018
  • D.S.
  • recomendo este produto
  • Esse livro emociona. É lindo demais.