Ética do Sinai (Pirkê Avot)
  • O Cuzarí
  • R$ 35,00
Na busca pelo caminho certo a seguir, o rei dos cazares convida representantes de várias religiões a fim de escolher a mais adequada de todas. Como todos mencionam negativamente o judaísmo, ele acaba convocando também um sábio judeu com quem passa a dialogar e a descobrir os mistérios da fé judaica. Este é o tema desta obra-prima da literatura clássica judaica, O Cuzarí, do Rabino Iehuda Halevi, erudito que viveu na conturbada Espanha do séc. XI.
  • Talmud Bavli - Berachot (capítulos 1-3)
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  • Talmud Bavli - Berachot 2 (capítulos 4-6)
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  • Talmud Bavli - Berachot (capítulos 1-3)
    Talmud Bavli - Berachot (capítulos 1-3)
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  • O Cuzarí
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  • Talmud Bavli - Macot
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Um dos mais importantes livros sobre judaísmo publicados em português em todos os tempos está de volta, já na 6ª edição.

Os textos que compõem este livro nasceram das concorridas conferências que o autor fez ao longo de mais de quatro décadas sobre a Ética dos Pais, o mais breve e, possivelmente, um dos mais importantes tratados do Talmud.
Segundo profundos conhecedores da literatura rabínica, o Pirkê Avót, como é chamado este tratado em hebraico, contém em si a essência da Torá - seu código ético e moral, brilhantemente aplicado à vida cotidiana através dos ensinamentos de 67 sábios do Talmud (suas biografias encontram-se no final da obra e, certamente, fascinarão o leitor).
Irving M. Bunim, um dos expoentes do judaísmo ortodoxo norte-americano deste século, dedicado estudioso e orador privilegiado, levou as lições contidas no Pirkê Avót a centenas de milhares de pessoas. Viveu em profunda harmonia com aquilo que transmitia: propagou a Torá aos jovens imigrantes que chegavam aos Estados Unidos já nos anos 20, evitando que sua herança judaica se perdesse em meio à cultura emergente da época, ajudou financeiramente a centenas de famílias e instituições e salvou dezenas de milhares de pessoas da morte ao interceder pessoalmente junto ao governo norte-americano para que as cotas de imigração fossem ampliadas durante a Segunda Guerra Mundial.
O tema deste livro e a estatura do autor tornam sua leitura obrigatória a todos aqueles que desejam chegar ao âmago do pensamento judaico.

Durante muitos anos esperei por uma tradução comentada do Pirkê Avót em português e saudei, com grande alegria, o lançamento de A Ética do Sinai pela Editora Sêfer.
O tratado Pirkê Avót é o mais importante conjunto de ditos de natureza ética conservado pelos sábios judeus durante muitos séculos. É um grande guia de vida. Um justo pode ser definido pelas suas palavras.
Por isso, esta não é uma obra de leitura obrigatória apenas para a comunidade judaica, mas para todos os homens e mulheres de bem que querem estar aos pés da Sabedoria.

Prof. João Bosco Lodi

Capítulo 1 - Mishná 18

Raban Shimon ben Gamliel diz: O mundo existe graças a três coisas: a verdade, a justiça e a paz; pois foi dito: “Que a verdade, a justiça e a paz reinem nas vossas portas.” 111a

Em que sentido este dizer difere do anterior (Mishná 2), que declarava que o mundo mantém-se sobre três coisas: a Torá, o serviço Divino e a beneficência? (Torá, avodá e guemilut chassadim). Observe que, em vez da palavra omed, manter-se, na passagem anterior, temos caiám, existir. A primeira passagem descreve os três valores que constituem o propósito da existência do mundo: o mundo foi criado para que Torá, avodá e guemilut chassadim venham a ser realidades na vida humana. O mesmo mundo pode existir, ser mantido e preservado somente se as condições de verdade, justiça e paz prevalecerem.

Outras interpretações foram apresentadas, encarando esta Mishná como complemento da anterior: Tendo vivido em época posterior ao Segundo Templo, quando a avodá, no sentido clássico de culto com sacrifício, não era mais possível, Raban Shimon ben Gamliel sugere-nos substitutos que encontram-se disponíveis para o lugar das oferendas em sacrifício.

Quando praticamos justiça e sustentamos a Lei estamos, de fato, aprendendo as lições de chatát, a oferenda de pecado, e asham, a oferenda de culpa, que refletem responsabilidade moral e castigo justo. Oferendas que eram trazidas como donativos livres ou cumprimento de uma promessa, nedarim e nedavót, nos ensinam a inviolabilidade de uma palavra, uma promessa, qualquer expressão da verdade. E se uma pessoa cultivar a paz irá, assim, exem­plificar o simbolismo de sheleamim, a oferenda de paz, e todá, a oferenda de ação de graças.

Portanto, diz Raban Shimon ben Gamliel, se desejarmos hoje cumprir o ditado original de Shimon, o Justo, devemos praticar a justiça, a verdade e a paz; elas irão substituir as oferendas perdidas da avodá original.

Podemos também dizer que este ensinamento sugere as qualidades específicas com as quais deve-se observar os caminhos da Torá, avodá e guemilut chassadim. Nosso estudo da Torá deve ser verdadeiro; suas conclusões devem estar de acordo com a lei, e deve haver um interesse sincero pela paz. Nosso culto deve ser sincero; nossas orações devem estar corretas, do ponto de vista da Halachá, e devem obter harmonia entre o ser humano e seu Criador. Do mesmo modo, nossos atos de bondade devem ser verdadeiros e feitos com sinceridade; devem ser consistentes com nossas obrigações legais e devem ter a intenção de semear a paz entre o homem e seu semelhante.

Estes três conceitos de justiça, verdade e paz também são fundamentais no processo judicial. Primeiro precisamos determinar a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. Não podemos nos basear em conjecturas ou na imaginação. Como Isaías relata a respeito do Messias: “Não julgará pela visão de seus olhos, nem decidirá pelo que escutarem seus ouvidos, mas com justiça julgará ao pobre, e decidirá com eqüidade pelos fracos da terra.”112 A aparência e a realidade são freqüentemente duas coisas distintas. O juiz deve ser capaz de enxergar além da superfície e determinar quais são os fatos do caso.

Em segundo lugar, a corte deve aplicar a lei objetiva e imparcialmente. Amiúde, a lei pode correr contra o que aparecem ser os fatos. No Talmud, Rabi Shimon ben Shatach conta: “Que eu veja a consolação de Sião com tanta certeza como eu vi alguém perseguindo outra pessoa, com a espada na mão. O outro correu para uma ruína e o perseguidor atrás dele. Eu os segui, apenas para encontrar o perseguidor com a espada em sua mão, o sangue escorrendo, e o outro agonizando. Eu disse ao homem: – Ó iníquo, quem o matou? Certamente, fui eu ou você. Mas o que devo fazer com você quando o teu destino não está em minhas mãos? Pois a Torá disse: ‘Por depoimento de duas testemunhas, ou de três testemunhas, será morto aquele que deve morrer; não será morto por depoimento de uma testemunha.’113 É melhor deixar a cargo d’Aquele que conhece todos os pensamentos o exato castigo para este homem. E antes que o homem pudesse fazer um movimento sequer, uma serpente venenosa o mordeu, e ele caiu morto.”113a

Rabi Shimon estava tão absolutamente certo de que o perseguidor havia matado a vítima e contudo só havia evidência circunstancial. A lei judaica exige o depoimento de pelo menos duas testemunhas que tenham realmente visto o crime, para que uma pessoa suspeita seja condenada. A lei tem de ser absoluta para garantir que evidências circunstancias nunca condenem um inocente.

Tanto a Verdade quanto a Lei, porém, devem servir ao interesse da Paz: paz em nosso meio ambiente social e harmonia entre os judeus e o seu Pai no Céu.

Depois que o Todo-Poderoso criara as terras secas, Sua próxima ordem foi: “Produza a terra ervas; deshe.”114 Se você quiser, as três letras da palavra deshe são os respectivos começos de din, shalom e emet – justiça, paz e verdade. Isto sugere portanto que, se este mundo recém-criado desejava perdurar, deveria produzir primeiro deshe: justiça, paz e verdade. Na verdade, nossos sábios declaram que o juiz que profere uma sentença baseado na verdade e na justiça converte-se – por assim dizer – em sócio do Santíssimo, bendito seja, na obra da criação.115

Esta interpretação pode continuar sendo verdadeira para outro aspecto da palavra deshe. O rei David, em seu Salmo 23, disse: “Far-me-á repousar em pastos (deshe) verdejantes.”116 Isto poderia significar: o Todo-Poderoso me concedeu o privilégio de descansar em um ambiente de justiça, paz e verdade.

Esta Mishná conclui com um texto comprobatório dos profetas: “Que a verdade, a justiça e a paz reinem nas vossas portas”. A palavra “portas” aqui significa um símbolo da cultura e civilização humanas. Se você deseja continuar tendo “portas”, ou seja, que a civilização perdure, você precisa ter verdade, lei e paz. Estas são as condições necessárias e suficientes para o homem manter relações inteligentes e significativas com o seu próximo. Estes são os alicerces da sociedade. Sem eles, as boas e viáveis relações entre os seres humanos tornam-se impossíveis.

___________________________________

111a. Zacarias 8:16.
112. Isaías 11:3-4.
113. Deuteronômio 17:6.
113a. Tosefta, San’hedrin 8, 3; T. B. San’hedrin 37b.
114. Gênesis 1:11.
115. T. B. Shabat 10a.
116. Salmos 23:2.

Introdução

Pirkê  Avót  significa,  literalmente,  capítulos  de Avót. E  o  que significa  Avót?  Trata-se de uma seção, de um tratado do grande compêndio da lei e do saber judaicos, a Mishná.

Para o leitor que não esteja totalmente familiarizado com a Mishná, talvez seja melhor começar com uma descrição introdutória deste clássico milenar da literatura rabínica.

É crença fundamental do judaísmo histórico que a Torá nos foi dada no Sinai: o imortal Moisés recebeu-a do Todo-Poderoso, ensinou-nos sua mensagem e entregou-a a nós, seu povo. A Torá era constituída por duas partes: a primeira delas, o Pentateuco, ou os Cinco Livros de Moisés, que chamamos de Torá shebichtav, a Torá escrita. A segunda  parte era a Torá shebealpe, a Torá oral, que continha explicações, interpretações e ensinamentos da Torá escrita. A Torá shebeal pê não deveria ser escrita: era ensinada oralmente, como um complemento da Torá escrita.1

Moisés ensinou o sagrado Livro da Torá, acompanhado por suas interpretações, a seu discípulo Josué. Este então ensinou-a aos Anciãos e eles, por sua vez, ensinaram-na a outros. Tudo o que era transmitido oralmente deveria ser repetido e repassado muitas vezes, assegurando-se assim que nada seria esquecido. Esta prática recebeu o nome de Mishná, palavra que significa um conjunto de ensina-mentos e instruções

A Mishná tornou-se nossa Tradição Oral, transmitida pelos mestres aos alunos, de geração em geração. Desde o início era proibido compilar por escrito2 qualquer parte desta Tradição Oral, por dois motivos. Primeiro, para que mestres e alunos se empenhassem a fundo, sempre por muitas horas, de modo a assegurar que tudo fosse perfeitamente lembrado e minuciosamente compre-endido. Há uma descrição do que supostamente ocorre em algumas salas de aula nas universidades, que diz que “os apontamentos (escritos) do professor tornam-se os apontamentos (escritos) dos alunos, sem passar pelas mentes de nenhum deles.” Com a Tradição Oral isto não podia ocorrer, pois não havia apontamentos escritos. Eles somente existiam na mente, na memória, no entendi-mento dos sábios e dos eruditos.

Em segundo lugar, temia-se que, se a Torá oral viesse a ser transcrita, as pessoas passariam a pensar nela como parte integrante da Torá shebichtav e começariam a tratá-la como tal. Isto produziria uma grave distorção, já que ambas são de natureza e caráter completamente diferentes, e desta maneira devem ser encaradas dentro das normas do judaísmo.

Há cerca de mil e setecentos anos, porém, Rabi Iehudá Hanassí (“o Príncipe”, presidente do Bêt Din, o Grande Tribunal e, portanto, chefe de seu povo) deu-se conta de que sob as condições turbulentas da época, não era mais possível para professores e alunos estudar e memorizar adequadamente a grande Tradição Oral. Pelo bem ou pelo mal, como se diz, ela deveria ser transcrita – antes que fosse completamente esquecida. Várias gerações mais tarde,  Rabi Iochanan e Resh Lakish  vieram a possuir até mesmo um volume escrito de Agadot, com ensinamentos e exposições homiléticas, que costumavam estudar aos sábados. Como justificativa, citavam um versículo das Escrituras Sagradas3 que apoiava sua prática, e afirmavam a necessidade de se ter a Tradição Oral por escrito “em vez de permitir que a Torá fosse esquecida pelo povo de Israel”.4 Para eles, a Torá shebealpe havia se tornado o próprio alicerce da Torá escrita.5

Como dissemos, Rabi Iehudá Hanassí foi o primeiro (mas de modo algum o último) a violar deliberadamente a proibição da transcrição da Tradição Oral, de modo que “esta Torá não fosse esquecida por seu povo”. Sua obra original chamou-se Mishná, e é estudada em nossos dias. (As  gerações posteriores discutiram a Mishná e seus próprios comentários e interpretações deram origem à Guemará. Ambas as obras, a Mishná e a Guemará, formam o Talmud.)

Já nas Escrituras, a palavra Mishná tem um significado diferente: mishnê lamélech6, ou “o segundo em comando”, aquele que vem logo abaixo do rei, um vice-rei que serve como ajudante. A partir desta acepção, a Torá escrita seria a “primeira”, a principal herança divina, e a Mishná, a “segunda em comando”, aquela que acompanha a “pri­meira” para servi-la através dos comentários e explicações que contém

A Mishná está dividida em seis seções, ou ordens7. A quarta seção, Nezikim, embora trate principalmente de danos e compensações, procedimentos judiciais e direito penal, inclui também Avót , um tratado sobre valores éticos e conduta moral. Vale a pena nos perguntarmos por que.

Um dos sábios do Talmud diz: “Aquele que deseja tor­nar-se um chassíd piedoso e benevolente, que observe as leis de Nezikim”, assegurando-se assim em não prejudicar a outros, ou deixando de efetuar um pagamento devido. Mas outro sábio vai mais longe: “Aquele que deseja tornar-se um chassid  piedoso e benevolente, que observe os ensinamentos de Avót.”8 Isto significa que cuidar para não prejudicar a outros ou ressarcir danos causados não é sufi­ciente. Para ser um chassíd, bondoso aos olhos de Deus e dos outros seres humanos, deve-se conhecer e seguir as sábias instruções e orientações contidas em Avót, um trata­do pequeno em tamanho e vasto em seu conteúdo de per­cepções e ensinamentos.

Explica-se assim a inclusão de Avót em Nezikim: depois de aprendida a prática referente às questões de perdas e danos, a dedicação as suas lições traria o próximo estágio de crescimento e desenvolvimento do caráter através da Torá.

*     *

O nome Avót significa, literalmente, “pais”, e pode parecer intrigante porque este termo dá nome ao tratado. O Rei Salomão disse: “Escuta, meu filho, a instrução (Mussár) de teu pai.” 9 No curso de nossa história, a palavra Mussár teve várias conotações, mas deriva, basicamente, da mesma raiz da palavra messorá, que significa tradição, ou ensinamentos transmitidos de mente para mente, de coração a coração. Escutar o Mussár do “pai” implica aceitar os ensinamentos mais tradicionais transmitidos por nossos sábios de abençoada memória, ensinamentos que passam de geração a geração desde o Sinai. Este seria o significado do termo Avót.

Na linguagem da Mishná, porém, o plural Avót e o singular Av têm, freqüentemente, significados distintos. Em termos como av melachá10 (o trabalho principal), av hatumá11  (fonte original, direta, de impureza ritual), Avót nezikín12 (principais tipos danos) e binian av13 (o estabelecimento de uma classe ou norma principal), a palavra av denota a fonte primeira, aquela da qual derivam as classificações e leis secundárias. Neste sentido, o título Avót informa que esta pequena obra contém os princípios fundamentais da ética, aqueles que norteiam nossa vida diária, princípios dos quais podemos inferir muitas coisas. Este conjunto de ensinamentos, talvez a própria essência do judaísmo, realmente forma a base de nossa conduta, e é “pai” de uma série de diferentes códigos éticos e filosofias.

Ao mesmo tempo, é muito provável que Avót denote os “pais” do judaísmo: iluminados como Hilel e Shamai, Rabi Akiva e Rabi Tarfon, entre outros – cerca de sessenta sábios no total, cuja sabedoria e os ensinamentos são apresentados ao longo dos capítulos deste trabalho.14 Estes sábios seriam nossos “pais”, nossos patriarcas rabínicos na moral e na ética, assim como Abrahão, Isaac e Jacob são nossos Avót na Bíblia.

Na época dos gueoním14a tornou-se costume nas academias da Babilônia recitar e estudar um capítulo de Avót aos sábados de tarde, após o serviço de Minchá, como ressalta Rabi Amram Gaon (século IX e. c.) em seu sidur. Os gueonim conheciam uma tradição segundo a qual Moisés havia passado para seu descanso eterno num Shabat à tarde, nesse horário.15 Por esta razão, eles, os gueonim, incluíram  os três versículos de Tsidcatchá Tsédec – “Tua retidão é uma retidão eterna...” – como uma oração de justificativa e aceitação da morte de Moisés.16  E tornou-se um costume acompanhar o serviço de Minchá com um capítulo de Avót para lembrá-lo, já que começa com o seu nome: “Moisés recebeu a Torá...”17 . Rabi Paltoi Gaon (século IX e. c.) deu outro motivo: O Talmud ensina que “quando um sábio morre, todas as casas de estudo e culto de sua cidade devem cessar suas atividades.”18 Isto sugere que, em lembrança ao falecimento de Moisés, seria adequado não se dedicar a um estudo intensivo e concen­trado do Talmud mas, sim, aprender e rever Avót, mais fácil por natureza.19

Das academias da Babilônia, o costume se difundiu para as comunidades judaicas de Ashkenaz, a França e a Alemanha de mais de 900 anos atrás, e verificamos que é mencionado pelo Rabi Abraham ben Natan de Lunel (ibn Iarchi; século XII, e.c.) em seu Sefer Haman’hig.20 Em Col Bo, uma obra anônima do século XIV, podemos ler que o costume variava entre as diversas comunidades: algumas estudavam Pirkê Avót apenas no período entre as festas de Pêssach e Shavuót; em outras, os capítulos eram abordados em períodos diferentes, ou, então, durante o ano todo.21 No Sidur Avodát Yisrael, por exemplo, publicado em Redelheim, em 1868, o autor, dr. Seligmann Baer, enumera nada menos do que três costumes diferentes, praticados em comunidades alemãs.

Na Mishná propriamente dita, são apenas cinco os capítulos de Avót. Mas, uma vez que são seis os sábados entre Pêssach e Shavuót, aparentemente por esta razão foi acrescentado um sexto capítulo, ainda na época dos gueonim, quando Rav Amram Gaon falou de “Avót e Kinian Torá”. Este capítulo adicional, Kinian Torá  – literalmente, a aquisição da Torá  – é uma beraitá, material muito semelhante a uma parte da Mishná não incluída originalmente na compilação feita por Rabi Iehudá Hanassí.

Desde tempos imemoriais, é costume, nas comunida­des judaicas da Europa Oriental,  recitarmos e estudarmos Avót desde o Shabat posterior a Pêssach até aquele anterior a Rosh Hashaná, perfazendo um total de quinze sábados. Em cada um dos doze primeiros, estudamos um capítulo; em cada um dos últimos três, estudamos dois capítulos. Como a palavra hebraica para capítulo é pérec, “capítulos” seriam perakim, e “capítulos de” seriam Pirkê. Assim, a obra passou a chamar-se Pirkê Avót, ou simplesmente, Pérec.

*     *

Não é acidente nem coincidência que a época observa­da para este estudo seja, originalmente, aquela entre Pêssach e Shavuót. Em Pêssach celebramos nossa libertação da escravidão no Egito, e partimos rumo à santidade, rumo à Torá. Não estávamos prontos, porém, para receber a Torá de imediato. Somente semanas mais tarde, já ao pé do Monte Sinai, é que pudemos recebê-la – e isto, nós celebramos em Shavuót. Na linguagem simbólica dos sábios, em Pêssach assumimos o compromisso de “nos casarmos com a Torá”; em Shavuót, este “casamento” espiritual acontece, através do pacto eterno e irrevogável, da aliança com o Todo-Poderoso e Sua Torá. Como se sabe, o tempo de noivado, de compromisso, serve, na vida real, para que os noivos conheçam melhor um ao outro, preparando-se para a vida em comum. O mesmo acontece entre Pêssach e Shavuót. À medida que “contamos os dias”, observando a Sefirát haOmer e esperando receber novamente a Torá do Sinai, nos preparamos através do estudo de Avót. É ele que nos dará uma idéia da grandeza, da maravilha e da profundidade da Torá, esta “noiva” espiritual única que vamos receber. A importância de Avót é tão grande que, sabe-se, a seguinte observação partiu de um erudito não-judeu: “Para se conhecer os ideais da ética e da devoção rabínicas, nenhuma outra fonte facilmente acessível pode equiparar-se a Avót.”22

Eu também acredito que não seja mera coincidência iniciarmos o estudo de Pérek na primavera,22a quando a natureza renova o grande ciclo da vida. É na primavera que as forças cálidas, vitais à regeneração, começam a se agitar e a fluir. Também o homem sente dentro de si o despertar de poderosos impulsos instintivos. Por isso é tão importante que ele ouça, exatamente nesta época do ano, as palavras de nossos chachamim. São elas que o ensinarão a superar a tentação e a paixão, desenvolvendo sua força de vontade e controlando suas ações. Pirkê Avót oferece Mussár, a instrução que nasce da Torá, e nos mostra como lidar com as vigorosas manifestações que chegam com a primavera.

Ainda assim, podemos nos perguntar se precisamos realmente desta instrução especial. Temos o Shulchan Arúch, um elaborado código de leis que define o bem e o mal, o justo e o injusto, em todas as circunstâncias práticas. E a própria passagem da Mishná que recitamos antes de cada capítulo de Avót proclama: “Todo o povo de Israel tem uma porção no mundo vindouro.”23 Por que devemos, então ter este Mussár especial, este ensinamento corretivo?

A resposta é que o Shulchan Arúch, um código de leis sobre o certo e o errado, não é suficiente. Nossa meta não é simplesmente observar a Lei, embora isto seja importante e fundamental. O objetivo final da Torá é transformar o espírito humano, o caráter de cada um de nós em algo belo e divino. David, o salmista, suplicou ao Todo-Poderoso: “Guarda minha alma, pois sou um chassíd.”24 No sentido clássico, chassíd é o termo que define uma pes­soa de profunda bondade e devoção. Mencionamos anteriormente a receita de um sábio: “Aquele que deseja tornar-se um chassíd, que observe as leis de Nezikín”, as leis que tratam de perdas e danos.25 Em outras palavras, deve-se aprender da Torá como evitar causar prejuízos e como pagar adequa­damente o mal que possa fazer. Mas, para outro de nossos sábios, isto não é suficiente. Seu conselho para se chegar a ser um chassíd  é “...que observe os ensinamentos de Avót”.25 O conhecimento e a observân­cia estrita da Lei não é tudo. O verdadeiro chassíd é aquele cuja profunda devoção eleva-o acima do sentido estrito da Lei. Se ele tiver a míni­ma dúvida de que possa estar enganado, ou de que sua queixa potencial é duvidosa, preferirá dar a seu com­panheiro o benefício da dúvida a fazer uso de seus direitos legais. O verdadeiro chassíd é aquele que superou sua natu­reza aquisitiva e olha mais além para enxergar o espí­rito da Lei.

Se você deseja atingir este nível de caridade e devoção e, assim, tornar-se um chassíd, os ensinamentos de Avót lhe são essenciais.

*     *

Muito bem. Os comentários anteriores explicam porque temos Pirkê Avót. Mas, por que tantas idéias, interpretações e explicações são geradas por Avót? Não bastaria uma boa leitura do texto, seja em hebraico, seja numa boa tradução? Esta leitura não seria suficiente para a compreensão e a inspiração?

A resposta é sim, mas apenas em parte. Na visão profética de Jeremias, o Todo-Poderoso compara Sua palavra com “um martelo que despedaça a rocha.” 26 E o Talmud comenta: “Tal qual a rocha que se parte em muitos fragmentos sob o golpe do martelo, assim cada palavra do Santíssimo, bendito seja, foi dividida em setenta expressões”27 – uma multiplicidade de significados e interpretações.28 Assim como a rocha se despedaça sob o golpe do martelo, diz novamente o Talmud, “um versículo das Escrituras Sagradas pode admitir muitos signi-ficados”.29 Portanto, o Midrash diz, simplesmente, que “A Torá tem setenta aspectos.”30

A linguagem da Torá, tanto sob a forma escrita quanto sob a forma oral, é multi-facetada: tem profundidades e níveis de significado insuspeitos. Se você tomar o “sentido literal”, tomando-a apenas superficialmente, não verá o esplendor e a glória que oculta.

Em nossa literatura antiga de comentário e misticismo, toma-se a palavra PaRDeS para indicar quatro abordagens da Torá, quatro formas de explorar e extrair seus tesouros de significado. Com as quatro letras da palavra PaRDeS começam as palavras Peshat, Rémez, Derash e Sod, respec­tivamente. Peshat, o primeiro, seria o sentido literal, puro e simples do texto. Com Rémez, seguimos a estrutura sintá­tica e gramatical de um versículo, levando em conta que certas palavras possuem um significado simbólico, ou metafórico. O Derash simplesmente omite a estrutura sintática de um versículo e até mesmo ignora seu contexto, percorrendo a Torá em busca de significados apontados pela  alusão e associação. Finalmente, temos o Sod, a leitura mais íntima e profunda de um texto, geralmente seguindo a concepção mística da Cabalá, e atingindo um grau de profundidade do significado que vai muito além dos anteriores.

Não é por coincidência que PaRDeS, a palavra formada pelas iniciais das quatro palavras citadas no parágrafo acima, signifique, literalmente, horta ou jardim. Esta tradução simboliza a exuberante riqueza de pensamento e inspiração que pode surgir dos textos sagrados, se soubermos como cultivá-los e como colher os frutos mais difíceis de alcançar.

Podemos dizer que também não foge ao normal a suposição de que um texto tenha diferentes níveis de leitura e aspectos distintos quanto ao seu significado. Con­sidere uma simples tonelada de carvão, por exemplo. Para uma pessoa comum, ela significa exatamente isto – 1000 quilos de combustível negro. Este tipo de com­preensão seria Peshat. Para uma pessoa com inclinação religiosa, o carvão poderia representar uma expressão da Providência Divina: ao criar Seu mundo, o Todo-Poderoso dispôs que uma substância se formasse durante um grande lapso de tempo, de modo que os seres humanos pudessem ter calor e uma fonte de energia. Esta é a abordagem de Rémez.

Uma terceira pessoa, mais dotada, poderia descobrir certas propriedades químicas no carvão que possibilitariam convertê-lo em gás, substância mais fácil de armazenar em tanques e transportar para locais distantes, onde ele se faz necessário. Esta mesma pessoa pode ainda aprofundar-se nas  pesquisas e aprender como converter o carvão em nylon, um produto com inúmeras utilidades na vida prática. Agora, pare e pense na imensa distância que separa um punhado de carvão de um metro de fibra sintética! Não obstante, pode-se demonstrar que um leva ao outro. Esta abordagem é análoga ao Derash.

Finalmente, surge um físico que se dedica a estudar a estrutura atômica do carvão. Ao provocar a fissão nuclear, ele libera uma parte da tremenda energia potencial contida no mineral. Este fenômeno é comparável ao Sod. Aos olhos de uma pessoa comum, o poder da fissão nuclear parece absolutamente misterioso, além de sua compreensão. Apenas um grande cientista, com um vasto conhecimento técnico e pleno domínio dos mais sofisticados instru­mentos pode extrair a energia latente da substância. Analo­gamente, só os grandes eruditos, aqueles iniciados na sabedoria da Cabalá, podem inferir os surpreendentes significados ocultos que se encontram latentes e insus­peitos nas palavras da Torá.

É através da linguagem que procuramos compartilhar idéias e pensamentos. Mas as palavras e as orações são so­mente sinais e símbolos dos pensamentos. Os conteúdos abstratos e fugazes que ocupam nossas mentes são intan­gíveis: não podem ser tocados, capturados ou retidos. Ao usar palavras, fazemos uma tentativa inadequada de trans­mitir nossas noções, intenções e percepções. Mas sempre há algum matiz de significado, algum resquício inefável que não pode ser traduzido em palavras para alcançar, as­sim, a mente do outro.

Isto pode ser melhor assimilado se imaginarmos a verdade como um poliedro, a figura geométrica de várias faces. O observador jamais consegue ver todas as faces do poliedro ao mesmo tempo, não importa a posição que tome. É preciso que ele se desloque e se coloque em várias posições para conseguir enxergar todas as faces da figura – ou da verdade.

Por esta razão, pela multiplicidade inerente ao conteú­do, torna-se tão inadequada a leitura simples de um texto referente à Torá. O mesmo acontece com uma tradução literal desse texto. Para tentar chegar às alturas, precisamos sondar as profundezas do pensamento de nossos eruditos e mestres. Seus ensinamentos, brindados pela luz da Di­vindade, nos trazem a versão oral da Torá em seus inúmeros níveis de significado.

Todas as afirmações em Pirkê Avót têm uma infinidade de explicações e conotações distintas. Em seus comentá­rios, gerações posteriores de eruditos encontraram ricas nuances de significado em cada expressão. Para compreen­dermos e apreciarmos a riqueza espiritual, o tesouro que constitui Avót, devemos buscar os diferentes aspectos de significado em cada uma de suas passagens.

Este é precisamente o objetivo do trabalho que você tem nas mãos. Nele, cada passagem de Pirkê Avót é inter­pretada e explicada demoradamente de diversas maneiras, para que a  compreensão se dê da forma mais completa possível.

*     *

Vivemos numa época em que o Mussár, o ensinamento ético, é considerado ultrapassado; uma época em que o castigo, a advertência e a crítica moral construtiva são considerados de mau gosto, onde o auto-questionamento e a busca do aperfeiçoamento religioso são vistos como ofensivos. Nos vemos aceitando passivamente um princípio basicamente anglo-saxônico: “Cuide de seus próprios assuntos.” Ou, “se vir alguém fazendo algo errado, não interfira; isto não lhe diz respeito.”

Nada poderia ser mais contrário à abordagem judaica. “Todos os judeus são responsáveis uns pelos outros”: Esta é nossa regra fundamental e primeira, enunciada e repetida no Talmud e no Midrash.31 Na visão eterna, infinita da Torá, o povo judeu é uma unidade orgânica. Todas as suas partes, divisões e integrantes, são responsáveis uns pelos outros. O que afeta a um judeu, afeta a todos. Rejeitamos o cinismo impiedoso e cruel de Caim, que pergunta: “Acaso sou eu o guardião de meu irmão?” 32

Se nosso propósito fundamental na travessia da vida é buscar o desenvolvimento e o crescimento pessoal através da ética e da moral, é vital que possamos aprender -- e ensinar – Mussár. Somente assim chegaremos a alcançar, ao lado de nossos irmãos judeus, o aperfeiçoamento de nossa espiritualidade. É obrigação de cada um apontar a um vizinho um possível erro de conduta, ajudando-o a evitar o pecado e suas trágicas conseqüências.

Nas Escrituras Sagradas lemos: “Quando encontrares o boi de teu inimigo ou seu asno, perdido, devolvê-lo-ás”.33 Mesmo que o proprietário deste animal seja seu inimigo, é obrigatório, segundo a Lei, que você o resgate e que o devolva. “Hashev teshivenu lo”, diz a Torá, literal-mente repetindo o verbo: “devolver devolvê-lo-ás para ele”. Segundo os sábios do Talmud e do Midrash, isto significa que mesmo que o animal continue escapando, mesmo que isto aconteça quatro, cinco vezes, você deve sempre devolvê-lo ao dono, ainda que este mantenha com você uma relação de inimizade.

Vamos supor que, em vez do animal de propriedade de um inimigo, você encontrasse perdido algo ainda mais valioso, desta vez pertencente a um amigo. Certamente, não mediria esforços para devolver o bem ao seu dono. E se fosse o próprio amigo aquele a se perder pelos caminhos sinuosos da vida? Quão maior não deveria ser sua preocupação, sua profunda obrigação, a de fazê-lo voltar à trilha correta?

Nossos profetas nos lembram que temos a obrigação de vestir aquele que está nu.35 Considerando que somos todos filhos de um mesmo Pai e que, na condição de seres humanos, possuímos a mesma dignidade inata, pois fomos  criados à Sua imagem, temos esta obrigação para com qualquer membro da família humana que seja demasiado pobre para vestir-se por seus próprios meios.

Pelo mesmo princípio, se encontrarmos alguém desprovido de direção e de fundamentos religiosos, alguém empobrecido, despojado de uma percepção superior, não temos a obrigação de “vesti-lo” com nossas mitzvót? Quando sua alma se encontrar em julgamento, diante do Criador, ele estará despido de realizações espirituais – a menos que lhe ofereçamos ajuda e orientação agora. Nós certamente compartilharemos de sua culpa, se não o ajudarmos a adquirir as preciosas vestimentas do espírito, confeccionadas com os fios das boas ações e da fé inabalável.

Devemos nos desfazer da fria indiferença que nasce do egoísmo e da insensibilidade. Vamos adotar, em seu lugar, a conduta judaica de responsabilidade para com nosso próximo e de profunda preocupação em relação ao nosso povo.  Desta forma, retornaremos ao Mussár, a sabedoria e ciência moral que devemos aprender e ensinar.  

*     *

Ao publicar este trabalho, não procurei ser original. Procurei, sim, apresentar o Mussár que recebi de meus guias e mentores, as “boas palavras” que me imbuíram de um forte reconhecimento e apreciação da nossa herança espiritual.

Fui muito afortunado por aprender o Mussár em toda a sua pureza com os mais inspirados e iluminados mestres, rabinos e autoridades de nossa época. Tive ainda o privilégio de transmitir esta “boa doutrina” em conferências anuais sobre Pirkê Avót durante os últimos quarenta anos.

O presente trabalho está sendo publicado com base nestas conferências, na esperança de transmitir este Mussár, esta “boa doutrina”, a um número cada vez maior e mais receptivo de leitores. Se ele servir para transmitir alguns de nossos princípios e valores mais caros, as verdades da ética e da moral que temos acalentado e valorizado como tesouros desde o Sinai, ficarei agradecido à Providência misericordiosa pelo zechut, o privilégio que me foi conferido.

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