Tempo futuro
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  • Judeus, judaísmo e o século 21
  • Autor:
  • Páginas: 272

  • O Rabino Sir Jonathan Sacks, um dos mais admirados pensadores religiosos de nossa época, faz um chamado aos judeus para que rejeitem a imagem de povo sozinho no mundo, cercado de inimigos que funciona como uma profecia que se autorrealiza e recuperem o sentido de propósito original do judaísmo, atuando como parceiros de Deus e de pessoas de outras crenças na luta infindável por liberdade e justiça social para todos.
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Um dos mais admirados pensadores religiosos de nossa época faz um chamado aos judeus para que rejeitem a imagem de “povo sozinho no mundo, cercado de inimigos” que funciona como uma profecia que se autorrealiza  e recuperem o sentido de propósito original do judaísmo, atuando como parceiros de Deus e de pessoas de outras crenças na luta infindável por liberdade e justiça social para todos.

Corremos o risco, diz o Rabino Jonathan Sacks, de esquecer qual é o lugar do judaísmo no projeto global da humanidade. Nos últimos dois mil anos, os judeus sobreviveram a perseguições que teriam significado o fim para a maioria das nações, porém não viam o antissemitismo como algo inerente à estrutura do universo. Eles sabiam que sua existência tinha um propósito, que não viviam apenas para si mesmos. O Rabino Sacks acredita que o povo judeu perdeu o rumo e precisa reassumir o compromisso de criar um mundo justo, no qual a Presença Divina possa residir entre nós.

Sem abrir mão de nenhum pormenor da fé judaica, declara o Rabino Sacks, os judeus devem posicionar-se ao lado de seus amigos cristãos, muçulmanos, hindus, sikhs, budistas e humanistas seculares em defesa da liberdade, contra os inimigos da liberdade, afirmando o valor da vida, contra os que desrespeitam a santidade da vida. E devem agir assim não para conquistar amigos ou admiração dos outros, e sim porque é isso o que se espera que faça um povo de Deus.

A mensagem poderosa do Rabino Sacks de ticun olam - usar o judaísmo como plano geral para a reparação de um mundo imperfeito - ecoará entre pessoas de todas as crenças.

Prólogo
Capítulo 1 História do Povo, Povo da História
Capítulo 2 Ainda existe um povo judeu?
Capítulo 3 Continuidade judaica e como obtê-la
Capítulo 4 O outro: judaísmo, cristianismo e islamismo
Capítulo 5 Antissemitismo: a quarta mutação
Capítulo 6 Um povo que habita só?
Capítulo 7 Israel, portal da esperança
Capítulo 8 Um novo Sionismo
Capítulo 9 A conversa judaica
Capítulo 10 Torá e sabedoria: o judaísmo e o mundo
Capítulo 11 Tempo futuro: a voz da esperança na conversa da humanidade
Epílogo
Notas
Leituras Suplementares
“Ontem”, dizia o político lendário, “estávamos à beira do abismo, mas hoje demos um gigantesco passo à frente.” A história judaica às vezes dá a impressão de ser exatamente isto: perigo, seguido por desgraça. Poderia ser vista assim na atualidade.
Sessenta anos após o seu nascimento, o Estado de Israel está profundamente isolado. Enfrenta mísseis do Hezbollah ao norte e do Hamas ao sul, dois grupos terroristas empenhados em destruí-lo. Realizou duas campanhas, a do Líbano em 2006 e a de Gaza em 2008-2009, com resultados inconclusivos. O Irã, com a ameaça de armas nucleares, está pronto para entrar em cena. Raramente seu futuro pareceu tão arriscado.
Ao mesmo tempo, Israel vê-se diante de um coro de reprovações internacionais à sua tentativa de combater o novo terrorismo que, cruelmente, refugia-se no meio de populações civis. Se nada faz, Israel deixa de cumprir o primeiro dever de um Estado, que é proteger seus cidadãos. Se faz alguma coisa, os inocentes sofrem. É um enigma capaz de causar perplexidade à mente mais criativa e atormentar a consciência mais escrupulosa.
Theodor Herzl pensava que a existência do Estado de Israel daria fim ao antissemitismo. Contudo, Israel tornou-se o foco de um novo antissemitismo. O surgimento de uma nova forma do ódio mais antigo do mundo, quando o Holocausto é uma lembrança vívida, constitui um dos fenômenos mais chocantes da minha vida.
Já seria terrível se fossem esses os únicos problemas do povo judeu. Porém, existem outros, que o enfraquecem de dentro. Há a crise da continuidade judaica. Em toda a Diáspora, em média, um em cada dois jovens judeus escolhe, por meio do casamento misto, da assimilação ou do desligamento, não continuar a história judaica; ser a última folha de uma árvore que durou quatro mil anos.
Há o eclipse do sionismo religioso em Israel e da ortodoxia moderna na Diáspora, as duas modalidades de judaísmo que acreditavam na possibilidade de manter as condições clássicas da vida judaica no mundo moderno. Os judeus ou estão se envolvendo no mundo e perdendo a identidade judaica, ou preservando sua identidade e afastando-se do mundo. Há divisões incessantes dentro do universo judaico, a ponto de ser difícil falar dos judeus como um povo com destino comum e identidade coletiva.
Este livro versa sobre todos esses temas, mas é também uma tentativa de ir além deles. Pois algo mais profundo está em jogo, uma questão fundamental e não resolvida, que diz respeito ao lugar dos judeus, do judaísmo e de Israel no mundo. “Uma imagem nos aprisionava”, disse Wittgenstein, falando da filosofia. O mesmo, creio eu, aplica-se aos judeus. A imagem de um povo sozinho no mundo, cercado de inimigos, privado de amigos, domina a consciência judaica desde o Holocausto. Isso é compreensível. É também perigoso. Leva a más decisões e corre o risco de tornar-se uma profecia que se autorrealiza.
Os judeus precisam recuperar a fé – não a fé simples, o otimismo ingênuo, mas a crença de que não estão sós no mundo. O ex-dissidente soviético Natan Sharansky, encarcerado porque desejava emigrar para Israel, conta que sua esposa, Avital, deu-lhe o livro dos Salmos em hebraico, para fortalecê-lo durante os anos duros que viriam. Os russos o confiscaram, e ele lutou por três anos para reavê-lo. Por fim, o livro lhe foi devolvido.
Sharansky sabia pouco hebraico, mas tratava o livro como um código a ser decifrado e finalmente conseguiu fazê-lo. Ele rememora o momento em que se revelou o significado do seguinte versículo do Salmo 23: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei nenhum mal, pois Tu estás comigo.” Foi uma epifania. Pareceu-lhe que alguém tivesse escrito essas palavras especialmente para ele, naquele lugar, naquela hora. Sharansky sobreviveu, obteve a liberdade e foi para Israel. Carrega o livro consigo até hoje.
Sharansky é um símbolo vivo dos judeus através dos tempos. Muitas vezes, eles perderam a liberdade, porém, enquanto sentiam que “não temerei nenhum mal, pois Tu estás comigo”, possuíam uma resiliência interior que os protegia do medo e do desespero. Não era uma fé ingênua, mas tinha um poder extraordinário. Os judeus mantiveram a fé viva. A fé manteve o povo judeu vivo. A fé derrota o medo.
O medo, por outro lado, gera um senso de vitimização. A vítima acha que está só. Todos estão contra ela. Ninguém a compreende. Ela tem duas opções: fechar-se dentro de si ou agir agressivamente para se defender. A vítima culpa o mundo, não a si própria. Desse modo, assume uma atitude que reforça a si mesma. A pessoa quer que o mundo mude, esquecendo-se de que talvez seja ela que deve mudar. Seus temores podem ser reais, mas a vitimização não é a melhor maneira de lidar com eles.
O medo é uma reação errada à situação dos judeus no mundo contemporâneo. Com a análise das notícias dia a dia, é fácil acreditar que os tempos são os piores possíveis; contudo, sob alguns aspectos, eles são os melhores. Nunca antes, em quatro mil anos de história, os judeus desfrutaram, simultaneamente, de independência e soberania em Israel e liberdade e igualdade na Diáspora.
A própria existência de Israel, nas páginas sóbrias da história empírica, é um evento quase milagroso. Israel tem de enfrentar guerras e terrorismo, porém transformou a situação judaica, pelo simples fato de existir como o único lugar onde os judeus podem defender-se sem terem de contar com a tão frequentemente inconfiável boa vontade alheia. Ao mesmo tempo, há um florescimento cultural, educacional e até espiritual da vida judaica na Diáspora que seria inimaginável um século atrás.
Na verdade, esta não é a pior das épocas, nem a melhor, mas a mais desafiadora. Hoje, os judeus estão numa posição em que raramente, se não jamais, estiveram antes, em quatro mil anos de história. Em Israel e na Diáspora, encaram o mundo como iguais ou, pelo menos, como judeus. O que isto significa?
Essa é a questão que trato neste livro. Meu argumento é que corremos o perigo de esquecer quem são os judeus, por que o povo judeu existe e qual é o seu lugar no projeto global da humanidade. No passado, os judeus sobreviveram a catástrofes que teriam significado o fim para a maioria das nações: a destruição do templo de Salomão, o exílio babilônico, a conquista romana, as perseguições do período de Adriano, os massacres das Cruzadas, a expulsão da Espanha. Eles escreviam elegias; enlutavam-se; rezavam. Porém, não davam lugar ao medo. Não se definiam como vítimas. Não viam o antissemitismo como algo inerente à estrutura do universo. Sabiam que a sua existência tinha um propósito, que não viviam apenas para si mesmos.
Os judeus, em Israel e outros lugares, precisam recuperar o sentido de propósito. Enquanto não se sabe onde se quer estar, não é possível saber aonde ir. Portanto, este livro não é só sobre os problemas que se apresentam aos judeus, ao judaísmo e a Israel no século 21. É também sobre uma questão mais ampla: quem são os judeus e por quê?
Estou profundamente envolvido com todos os problemas sobre os quais escrevo: a luta contra o antissemitismo, o fortalecimento da continuidade judaica e, no contexto da Diáspora, a defesa de Israel na mídia, no meio acadêmico, nas organizações não governamentais (ONGs) e na política britânica e europeia. Meu papel é pequeno, sou uma voz entre muitas, e tem sido um privilégio trabalhar com pessoas e instituições, judaicas e não judaicas, que fazem muito mais.
Contudo, senti uma ausência nesses esforços. Não é culpa de ninguém. É o preço que se paga pela urgência e envolvimento. Notei que estava faltando o quadro maior, a perspectiva histórica, ligar os pontos para formar uma figura que nos mostre o quem, o quê e o porquê da situação judaica contra o vasto pano de fundo da paisagem humana e histórica. Há um versículo da Bíblia citado com mais frequência por não judeus do que por judeus: “Sem visão, o povo perece” (Provérbios 29:18). No entanto, são os judeus que deveriam ouvi-lo. Eles eram um povo de visão, cujos heróis eram visionários. Isso jamais deve ser perdido.
No calor do momento, as pessoas fazem o que fizeram da última vez. Voltam a ser o que eram antes. Escolhem o modo-padrão. Na presente circunstância, essa reação é errada. As coisas mudam. O mundo, no século 21, não é o que era no século 20 ou 19. Fronteiras que, há poucas décadas, pareciam garantir a segurança de Israel não oferecem defesa contra mísseis de longo alcance. O nacionalismo secular do tipo que dominou o Oriente Médio depois da Segunda Guerra Mundial não é igual ao terrorismo de motivação religiosa, e não se pode lidar com eles da mesma maneira.
O velho antissemitismo, produto do nacionalismo romântico europeu do século 19, não é igual ao novo, por mais antigos que sejam os mitos reciclados. Não se pode combater o ódio transmitido pela internet do mesmo modo que se combatia o ódio pertencente à cultura pública. Caso se fale aos britânicos do aumento do antissemitismo, eles, em sua maioria, olharão com uma expressão de absoluta incompreensão. Não leem sobre isso nos jornais; nem o veem na televisão. Como haveriam de saber que seu vizinho de porta talvez o esteja inalando de um site de cuja existência eles não têm conhecimento?
Sob pressão, as pessoas fazem o previsível. Moisés agiu assim uma vez, e isso lhe custou a entrada na Terra Prometida. O povo queria água. Deus disse a Moisés que tomasse uma vara, falasse à rocha e a água apareceria. Moisés tomou a vara, bateu na rocha e a água fluiu. Então Deus disse, com razão: “Não fizeste o que te ordenei. Não entrarás na terra.”
Essa história causa perplexidade a quase todos que a leem. Castigo tão grande por um pecado tão pequeno? Além do mais, qual foi o pecado mesmo? Nós nos esquecemos de que um episódio quase idêntico aconteceu antes, pouco depois que os israelitas atravessaram o Mar Vermelho. Naquela ocasião, Deus disse a Moisés que tomasse uma vara e batesse na rocha, e ele obedeceu. No segundo caso, Moisés seguiu o precedente. Fez o que tinha feito anteriormente. Podemos imaginar seu raciocínio: “Deus disse: ‘Toma uma vara.’ Da última vez, isso significava: ‘Bate na rocha.’ Logo, desta vez também baterei na rocha.”
Havia uma diferença evidente: algo como quarenta anos. Da primeira vez, Moisés guiava pessoas recém-saídas da escravidão. Agora conduzia seus filhos, nascidos em liberdade. Escravos entendem que uma ordem é acompanhada de uma vara. Homens e mulheres livres não respondem a varas, mas a palavras. Necessitam de líderes que falem, não que batam. Moisés, que por quarenta anos guiou uma geração saída da escravidão, não era a pessoa certa para conduzir um povo livre na travessia do Jordão.
Reações corretas numa época podem ser erradas na seguinte. Isso se aplica aos judeus e ao judaísmo de hoje. Preocupa-me a previsibilidade das reações judaicas, como se o passado ainda lançasse sua sombra sobre o presente. Atualmente, os judeus não são vítimas, não são impotentes e não estão sozinhos. Pensar desse modo é contraproducente e disfuncional. O antissemitismo não é inevitável e nem sequer misterioso. Tampouco há uma lei da natureza que determine que os judeus devam brigar entre si, frustrar os esforços uns dos outros e criticar-se mutuamente de forma impiedosa, como se ainda estivessem no deserto perguntando-se por que deixaram o Egito.
O mundo mudou, e os judeus devem mudar, como sempre mudaram, voltando aos princípios fundamentais e indagando sobre o caráter da vocação judaica, “renovando os nossos dias” – conforme o adorável paradoxo judaico – “como foram outrora”.
Relutei em escrever este livro. Tanto se publicou nos últimos anos: sobre Israel, o novo antissemitismo, a continuidade judaica e tópicos semelhantes. Não pretendo, levianamente, ser apenas mais um. Procurei delinear o quadro amplo, a visão mais abrangente, esperando apresentá-la a uma nova geração, não só de leitores, mas de líderes. Tentei fazer as perguntas importantes – quem são os judeus e o que se pede deles neste momento – e, independentemente de serem as minhas respostas persuasivas ou não, as questões são reais e não desaparecerão.
Creio que os horizontes temporais no mundo judaico – na verdade, no Ocidente em geral – são reduzidos demais. Pensamos no ontem, hoje e amanhã, enquanto os inimigos dos judeus e da liberdade pensam em décadas e séculos, como afirma Bernard Lewis frequentemente. Numa batalha entre os que pensam no futuro próximo e os que pensam no futuro distante, os últimos vencem no longo prazo, quase por definição. Táticas não substituem estratégia; as manchetes de amanhã não são o veredito da história. Os judeus estiveram presentes durante dois terços da história da civilização. É tempo suficiente para saber que a vida judaica necessita de algo mais profético do que o gerenciamento de crises.
Portanto, tentarei nos próximos capítulos colocar o presente no contexto mais amplo do passado e futuro e relacionar os problemas imediatos a ideais supremos. Meu argumento será que perdemos o rumo e precisamos recuperar os parâmetros clássicos da história judaica, que não é sobre antissemitismo nem sobre Israel como uma nação cercada de inimigos. Tampouco é sobre judeus fadados a viver sós, na melhor das hipóteses mal compreendidos e, na pior, alvo eterno de ódio. É uma história de fé, uma fé incomum, em que Deus chama um povo e incumbe-o de ser Seu parceiro na criação de vidas – e, em Israel, de uma sociedade – que venham a ser morada para a Presença Divina. Essa fé inspirou não só judeus, mas também cristãos e muçulmanos, cujas respectivas religiões brotaram em solo judaico, bem como outros, que admiraram nos judeus o amor à família, comunidade, educação e tradição, a busca de justiça, a paixão pela discussão e o senso de humor, capaz de rir mesmo em face da tragédia.
Creio que isso não é acidental. O judaísmo nunca se destinou apenas aos judeus. Contém uma mensagem para toda a humanidade, e muita coisa no século 21 decorrerá da prevalência dessa mensagem ou de outra. O judaísmo é parte da conversa humana, e devemos esforçar-nos para compartilhar nossas ideias com os demais, deixando também que compartilhem as deles conosco. Por muito tempo – na maioria das épocas – isso simplesmente não foi possível. O mundo não estava interessado no que os judeus tinham para dizer. Eles existiam para serem convertidos ou assimilados, ou então eram “os outros”, constantemente insultados. Isso mudou, por duas razões.
Primeiramente, as democracias liberais abrem espaço para uma multiplicidade de vozes. Todos têm o direito de falar em nome próprio. Essa é a glória da democracia liberal. Em segundo lugar, graças à existência do Estado de Israel, os judeus podem falar em condição de igualdade. Não precisam mais ser assombrados pelo trauma da falta de pátria.
Essas mudanças não são insignificantes. Em consequência delas, os judeus devem voltar ao princípio e à Bíblia Hebraica, perguntando novamente o que é ser judeu, membro de um povo singular num mundo plural, simultaneamente consciente da particularidade da identidade e da universalidade da condição humana. Como ser ao mesmo tempo fiel à sua própria crença e uma bênção para os outros, independentemente da crença deles? Eis a questão judaica.
Os problemas enfrentados pelos judeus no século 21 são imensos, porém outros também os enfrentam. O terrorismo é uma ameaça não só para Israel, mas para toda sociedade livre após o 11 de Setembro. Os judeus sofrem ódio e preconceito. O mesmo ocorre aos muçulmanos, hindus e sikhs na Grã-Bretanha, aos cristãos na Nigéria, aos budistas no Tibete e aos chineses nas Filipinas. Os judeus inquietam-se com o futuro, perguntando-se se seus filhos e netos levarão adiante as suas tradições. Toda minoria religiosa nas democracias diversificadas do Ocidente tem essa preocupação. Como escrevi livros sobre a continuidade judaica, já fui consultado por muçulmanos britânicos a respeito da continuidade islâmica e por chineses de Hong Kong sobre a preservação do confucionismo e do taoísmo.
Foi preciso que um autor não judeu, o historiador católico Paul Johnson, afirmasse o óbvio em sua magistral História dos Judeus. Ele escreve que os judeus eram “modelo e personificação da condição humana”, como se apresentassem “todos os dilemas inescapáveis do homem de forma intensificada e nítida”. E conclui: “Parece ser o papel dos judeus concentrar e dramatizar essas experiências comuns da humanidade, transformando seu destino particular em moral universal.”1 Nossa singularidade é nossa universalidade.
Os judeus não estão sozinhos diante dos desafios. O mundo está passando por um turbilhão de mudanças, de ritmo raramente visto antes. Nos meses em que eu escrevia este livro, do verão de 2008 ao início de 2009, a estrutura financeira global ruiu. Uma economia após a outra entrou em recessão. Houve um ataque terrorista trágico em Mumbai. Israel realizou uma campanha controvertida em Gaza. Os ataques antissemitas na Grã-Bretanha atingiram seu nível mais alto desde que se começou a registrá-los, há vinte e cinco anos. Os acontecimentos locais nunca tiveram repercussão tão rápida em toda parte. Na frase ilustrativa de Matthew Arnold, estamos “vagando entre dois mundos, um morto, o outro sem força para nascer”.
Neste momento histórico, talvez mais do que em qualquer outro do passado judaico, as palavras de Deus a Abrahão, chamando-o a uma vida por meio da qual “todas as famílias da terra serão abençoadas”, ressoam com mais intensidade. Os judeus são o mais antigo povo global do mundo – até recentemente, o único. O povo que reconstruiu sua vida após o Holocausto, o maior crime do ser humano contra o ser humano. Israel, sob ataque quase constante há sessenta anos, mantém uma sociedade livre e democrática numa parte do mundo que jamais conheceu tais coisas. Chegou a hora de os judeus se livrarem de seus temores e se reapossarem de suas forças históricas.
Essas propostas são controvertidas, mas não as apresento levianamente, como especulações acadêmicas que não passaram pelo crivo da experiência. Ao contrário, são conclusões às quais fui conduzido em resultado do meu envolvimento pessoal com todas as questões de que trato. Apliquei-as em campo, e elas funcionam. Examinei-as à luz de nossos textos sagrados, e elas mostraram-se coerentes.
Após extensa reflexão, considero que, neste século tenso e conturbado, os judeus devem assumir uma posição positiva, não motivada pelo medo, não guiada pela paranoia ou senso de vitimização, mas fundamentada nos valores pelos quais nossos antepassados viveram e estavam dispostos a morrer: justiça, equidade, compaixão, amor ao estrangeiro, santidade da vida e dignidade do ser humano, independentemente de cor, cultura ou credo. Não é hora de retirar-se num gueto da mente. Este é o momento para renovar a mais antiga das instituições bíblicas, a aliança de solidariedade humana, feita nos dias de Noé, após o Dilúvio. Sem abrir mão de nenhum pormenor da fé ou da identidade judaica, os judeus devem posicionar-se ao lado de seus amigos – cristãos, muçulmanos, budistas, hindus, sikhs e humanistas seculares – em defesa da liberdade, contra os inimigos da liberdade, afirmando a vida, contra os que idolatram a morte e desrespeitam a santidade da vida.
Alan Greenspan disse que estamos entrando numa era de turbulência. O antídoto para o medo é a fé, uma fé que conhece os perigos, porém nunca perde a esperança. Entendo a fé não como certeza, e sim como coragem de viver com a incerteza, a coragem que Natan Sharansky descobriu em sua cela na prisão, que levou os judeus a reconstruir sua vida e sua pátria ancestral depois do Holocausto, que fez geração após geração transmitir o modo de vida judaico aos filhos, sabendo dos riscos inerentes, mas sempre apreciando o privilégio do desafio. O povo judeu é antigo, porém ainda jovem; um povo sofredor ainda cheio de energia moral; conheceu as piores aflições do destino e, no entanto, continua capaz de alegrar-se, mantendo-se como símbolo vivo da esperança.

O Rabino Lord Jonathan Sacks foi, de 1991 a 2013, Rabino-Chefe da Grã-Bretanha e Comunidade Britânica. Educado em Cambridge e Oxford, lecionou em universidades e liderou congregações na Inglaterra, em Israel e nos Estados Unidos.
Autor de vários livros, entre eles Uma Letra da Torá, Para Curar um Mundo Fraturado, Celebrando a Vida, A Dignidade da Diferença, Tempo Futuro e Do Otimismo à Esperança, publicados em português pela Editora Sêfer, ele vive em Londres, Inglaterra.
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