Luzes da Torá (1) - Gênesis
  • Torá - A Lei de Moisés
  • R$ 150,00
Esta preciosa obra apresenta o texto hebraico da Torá ao lado de sua tradução para o português. Mantendo intactas as interpretações dos comentaristas clássicos, e inspirada no Talmud e no Midrash, foi editada segundo as porções semanais de leitura e por capítulos e versículos, complementada por interessantes comentários e ilustrações.
  • Salmos - Com Tradução e Transliteração
  • R$ 60,00
Vitor Fridlin, David Gorodovits e Jairo Fridlin apresentam, lado a lado, o texto hebraico dos Salmos (editado especialmente para este fim) e sua transliteração e tradução para o português, com breves introduções antes de cada salmo, para os leitores saberem a que tipo de situação sua leitura é aconselhada.
  • Bíblia Hebraica
  • R$ 85,00
Apresenta a tradução para o português da Bíblia diretamente do hebraico e à luz do Talmud e das fontes judaicas, mostrando a forma como os judeus leem e entendem o texto bíblico há milhares de anos. Isso explicará por que os judeus são como são, em que se baseia a fé judaica ancestral e, talvez, o segredo da sua existência ao longo da história.
  • Torá Hoje
  • R$ 40,00
Compilação de 54 criativas análises sobre cada uma das porções semanais da Torá, em estilo claro e moderno, de modo a aproximar o leitor do precioso mundo da Torá e da forma como o judaísmo encara e enfrenta os desafios da sociedade moderna.
  • Bandeira adesiva de Israel
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    R$ 0,50
  • Decifrando a Criação
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    R$ 35,00
  • Bíblia Hebraica
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    R$ 85,00
  • Torá - A Lei de Moisés
    Torá - A Lei de Moisés
    R$ 150,00
  • O Mestre do Bom Nome
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    R$ 5,00
  • A Ética do Sinai (Pirkê Avot)
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    R$ 100,00
  • Chumash com Rashi - Shemot (Êxodo)
    Chumash com Rashi - Shemot (Êxodo)
    R$ 15,00
  • Salmos - Com Tradução e Transliteração
    Salmos - Com Tradução e Transliteração
    R$ 60,00
  • Reflexões sobre a Torá
    Reflexões sobre a Torá
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  • Velas coloridas de Chanucá - Velas Chanuca SEFER - 2 caixas
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Análise moderna e surpreendente sobre inúmeras passagens do Gênesis.
 
Na visão do Rabino Shlomo Riskin, a Torá é, ao mesmo tempo, o documento mais antigo e o mais atualizado entre todos os que visam oferecer orientação à vida humana. Ele auxilia os leitores a extraírem dela lições pessoais adequadas aos tempos atuais, mesmo em se tratando de textos escritos milhares de anos atrás. Como ele escreve na introdução, a análise dos problemas expostos na Torá reflete os problemas que a própria vida nos apresenta. Assim, a capacidade da Torá de falar simultaneamente a cada geração e a cada indivíduo em particular é o maior testemunho de sua origem Divina.
 
Apresentação
Prefácio
Tributo
Introdução

Bereshit
O que é a Torá?
A revolução de Copérnico e a posição do ser humano 
Por que coisas ruins acontecem às pessoas boas?
O primeiro casamento: superando a solidão e o isolamento 
Por que foi proibida a fruta proibida?
O ser humano se assemelha mais a Deus ou aos animais? 
Os lauréis e os limites da Ciência

Nôach
Expandir-se ou retrair-se? Família x Mundo
Palavras constroem mundos (continuação) 
O vegetarianismo e a Bíblia
 Dois agnósticos, mas somente um deles é justo
 Israel e as nações
 O Dilúvio e a Torre de Babel
 
Lech Lechá
Nacionalismo x Universalismo: o dilema interno de Abrahão
Abrahão: inovador ou continuador?
Tirar vantagem é o mesmo que escravizar
 O milagre da fé
 Contrato ou pacto?
Nação ou religião?

Vaierá
O silêncio de Abrahão
 O sacrifício final 
Afinal, de quem foi o sacrifício: de Abrahão ou de Isaac? 
Isaac e Ismael: dois destinos partilhados
O poder e as limitações de um pai 

Chaiê Sará
A bênção da velhice: pais e filhos
O significado de um túmulo
 O que fez Labão sair correndo?
 Abrahão é o rabino porque Sara é a rabanit
 Casamentos arranjados x Casamentos românticos

Toledot
Com quem podemos estabelecer tratados?
A escolha de Rebeca: engano em nome dos Céus
A verdade por trás das máscaras 
Talvez Esaú seja o primeiro impostor
O homem propõe e Deus dispõe

Vaietsê
O primeiro monumento à vida e à eternidade
Será que alguém pode realmente voltar para casa?
Podemos barganhar com Deus?
O que você sonha traduz o que você é
O que importa não é o que você tem, mas o que você é

Vaishlách
Em busca de Deus e em busca de si mesmo
Uma releitura de Esaú: identidade sem continuidade
Quem são os verdadeiros terroristas: Simão e Levi 
ou Sechém e seus súditos?
Vaieshev
Em que se constitui a culpa?
Judeus e não Rubeus
Sonhos e visões

Mikêts
A habilidade de escutar tanto seus próprios sonhos 
quanto o dos outros 
Por que José não mandou um e-mail para seu pai?

Vaigásh
As lágrimas de José e Benjamim
Uma reunião de fidelidade e lágrimas
A verdadeira arte da negociação
Por que choramos?
Sobre carros e animais, trens e aviões, 
culpa e perdão, pais e filhos
A distância torna o coração mais afetuoso ou mais distante?
 O mau-olhado não te controlará

Vaichí
O começo do fim
A quem você pertence?
Por que abençoamos nossos filhos como “Efráim e Menashê”? 
O milênio e o messianismo normativo

Comentaristas citados nesta obra



PREFÁCIO

Durante o período de formação mais importante da minha vida, entre os 10 e 16 anos, passei cada jantar da noite de Shabat com minha avó materna, Chaya Beyla bat Rav Shlomo Hacohen e Mindel. Ela era uma mulher notável, rica em conhecimento e profundamente comprometida com o cumprimento de tudo que manda a lei judaica. Ela veio para o Brooklyn, em Nova York, do shtetl (vilarejo) de Lubien, na Polônia, em 1922, e morreu em 1960 sem nunca ter aprendido a falar corretamente sequer uma frase em inglês. Seu universo permaneceu no mundo do yidish e do hebraico, do Sidur, da Bíblia e do Morgen Journal (“Jornal da Manhã”, em yidish), e seus amigos mais próximos eram todos do mesmo shtetl onde ela cresceu. Sua sinagoga era chamada de Ets Chaim Anshei Lubien, uma congregação formada por landsman (pessoas do mesmo vilarejo).
Na sinagoga, as pessoas se sentavam nas filas conforme a ordem adotada em Lubien, e seus túmulos (na seção de Lubien do Washington Cemetery em Bensonhurst, no Brooklyn) eram dispostos para que cada um ficasse ao lado daqueles com quem tinha compartihado shabatot e chaguim nesse mundo.
A despeito de suas limitações de linguagem, minha avó era extremamente patriótica em relação à América. Ela havia milagrosamente se tornado uma tsitsizen (cidadã) e, no decorrer das discussões que mantinha ao redor de sua mesa com os amigos, não permitia que ninguém dissesse palavras indelicadas a respeito de um de seus heróis contemporâneos, que ela considerava um genuíno representante dos “gentios justos” e um salvador do povo judeu: o Presidente Franklin Delano “Rosenfeld”. 
Ela adorava o teatro yidish e tinha especial devoção por música de chazanim, principalmente a de Yossele Rosenblatt. Tinha lido Goethe e Heine em sua mocidade, por instigação de seu marido, meu avô Chaim, que fora uma pessoa bem educada. Sua grande paixão, depois dos filhos e netos, era o estudo da Torá. Seu pai, o Rabino Shlomo Hacohen Kowasky (cujo nome eu herdei), tinha sido daian (juiz rabínico) em Lubien e, como sua esposa dera à luz três mulheres, sendo a minha avó a mais velha delas, ensinou a ela não somente o Chumash (os Cinco Livros de Moisés) como também Mishná e um pouco de Guemará. Conta a tradição da família que ele viveu até os 115 anos e sobreviveu a três esposas, mas continuou a ensinar à sua brilhante Baltcha (diminutivo de Beyla) até ela se casar.
Assim como aconteceu com muitos de seus contemporâneos, cada um de seus sete filhos manteve fortes laços étnicos e nostálgicos com as tradições judaicas, embora seu desejo de aculturação na América se mostrasse mais forte que a obediência aos mandamentos Divinos de Shabat e Cashrut. Como eu era o filho mais velho de sua filha caçula e tinha estudado na Ieshivá (somente porque seu currículo acadêmico era melhor que o da escola pública local, num bairro que estava em rápida transformação), eu era sua última esperança. Ela supria minha mãe com comida casher, supervisionava minha educação religiosa por meio de visitas semanais ao diretor da escola judaica e me convidava para passar com ela todas as noites de Shabat (meu avô Chaim tinha sofrido um AVC e estava num lar de convalescentes).
Aquelas noites inesquecíveis começavam com a bênção das velas. Ela ficava diante de seu candelabro de sete braços (que ela carinhosamente segurou durante toda a viagem de navio que a trouxe da Europa) por pelo menos 20 minutos falando com Deus como se fala com um velho amigo em quem se confia, lembrando-se de todos os filhos e de todos os netos, recitando pedidos e agradecimentos ligados a cada um deles. Rezávamos então juntos, pronunciando palavra por palavra. A comida era deliciosa. Entre um prato e outro, cantávamos zemirot (canções de Shabat) com as mesmas melodias que meu bisavô Shlomo cantava em Lubien e estudávamos a porção semanal da Torá traduzida para o yidish.
Minha avó tinha uma maneira maravilhosa de tornar vivos os personagens bíblicos. Ela não escondia nada; aprendi os fatos da vida e as proibições da Torá nas várias passagens bíblicas que estudei com ela. O mais importante é que seu Deus era realmente o “Pai do céu”, uma espécie de exaltado bisavô Shlomo que a amava e protegia das alturas. Ela nunca falava da punição Divina como castigo pelos nossos pecados, somente da decepção Divina com nossos erros. (Assim, até hoje não tenho tanto receio de que Deus me puna quanto me envergonho com a possibilidade de desapontá-Lo com minhas ações ou com a falta delas.)
Ela adorava especialmente descrever como se cortejavam nossos patriarcas e matriarcas, destacando sempre o amor entre Jacob e Rachel. “Foi assim com seu avô e comigo”, ela dizia. Ouvi muitas vezes que meu bisavô Shlomo recusava receber dinheiro em troca do ensino da Torá e por seus julgamentos como daian. Ele tinha uma loja de feno e aveia, e um grupo de jovens trabalhava com ele metade do dia e todos recebiam como salário o direito de estudar com ele na outra metade do dia. Eles acordavam à meia-noite para o ticun chatsot (reza da meia-noite), estudavam até quase o amanhecer, iam ao micvê, rezavam, trabalhavam por toda a manhã e uma parte da tarde e depois estudavam mais. Eles levavam consigo seus tefilin quando saíam no meio da noite; deixavam-nos cuidadosamente arrumados sobre um cobertor estendido na grama quando iam ao micvê e os usavam para rezar quando voltavam.
Minha avó não gostava do desrespeito com os tefilin. Ela se levantava na mesma hora que os trabalhadores e, quando começavam a estudar e ela achava que não a notariam, colocava todos os tefilin num armário e depois os devolvia ao cobertor antes que eles voltassem do micvê.
Meu avô era neto do irmão do genro do (autor do livro) Sefat Emet e era um chassid de Guer. Vinha de um vilarejo um pouco maior, Wrozlawek, onde tinham feito seu noivado com uma moça que ele só tinha visto uma vez. Ele notou o cuidado especial que minha avó tinha pelos tefilin e, eventualmente, notou algo mais, porque se apaixonou profundamente. Convenceu seu pai a cancelar o compromisso anterior e, assim, Chaim casou com Baltcha, e o jovem casal passou a viver na casa do Rabino Shlomo Kowasky, em Lubien.
E era deste modo que minha avó e eu passávamos cada noite de Shabat: comida deliciosa, histórias maravilhosas, canções interessantes e estudos da Torá. Eu me sentia quase transportado para o shtetl mágico de Lubien. Parecia que eu conhecia todas as suas ruas, seus odores, seu povo... Eu sentia que o conhecia até melhor do que a área de Bedford Stuyvesant, onde eu morava.
*
Em 1933, fui convidado a participar da Marcha da Vida. Visitar a Polônia seria para mim como se eu “voltasse” à Polônia. Teria a oportunidade de visitar o lar de meus antepassados em Lubien. Aceitei com entusiasmo.
Mas onde fica Lubien? O atlas indicava três possibilidades: 1) Lubien perto de Wrozlav, próximo à fronteira da Alemanha; 2) Lubien perto de Teczycay, na estrada que vai para Lodz, e 3) Lubien Kujawski, a uns 29 km de Wrozlawek. Meu avô Chaim sabia falar alemão muito bem, mas eu estava certo de que minha avó tinha dito que ele era de Wrozlawek, não de Wrozlav. Além disso, um mapa detalhado da estrada indicava um lago na entrada de Lubien Kujawski e minha avó havia me contado sobre o lago no qual ela nadava no verão e patinava no inverno. Lubien Kujawski devia ser a “minha” Lubien.
Às 5 da manhã de um domingo, no 28º dia de Nissan de 5753 (1993), parti do Fórum Hotel de Varsóvia com um motorista que havia sido especialmente recomendado. Seu nome era Greg, apelido de Gregor, e era um médico polonês que falava inglês perfeitamente. Nosso destino era a minha “cidade natal de Lubien”. Eu estava muito animado, embora minha sábia esposa houvesse me prevenido, dizendo que eu não encontraria meu avô Shlomo esperando por mim com uma guemará aberta em suas mãos e uma canção dos chassidim de Guer em seus lábios. Quando deixamos a cidade de Varsóvia e começamos a nos aproximar das cidades menores, elas me pareceram vagamente familiares, com seus prados verdejantes e suas florestas, entre cujas árvores podiam ser vistas cabanas, cavalos e pessoas. Ali pensei ver Tevye, o leiteiro, ensinando ao seu filho uma porção do Chumash em seu caminho de entregas e, mais adiante, eu quase tive certeza de ter visto um chassid retornando para casa, depois de passar as férias com seu rebe. Infelizmente, eu estava bem ciente de que a Polônia tinha se tornado um lugar virtualmente sem judeus. Meu coração deu um pulo quando avistamos o letreiro anunciando Lubien Kujawski e pude ver pequenas fazendas em volta do lago, o cemitério cristão e a grande igreja. Tudo como minha avó havia descrito; parecia não ter mudado nada.
Meu motorista polonês estava muito surpreso por ver que a cidade que eu amorosamente descrevera com dados da minha imaginação se parecia tanto com a realidade que havíamos encontrado. “Tem certeza de que nunca esteve aqui antes?”, ele me perguntou. “Sim, eu realmente nasci aqui”, respondi, deixando-o sem entender mais nada. Havia, contudo, uma discrepância, pois minha avó descrevera o cemitério judaico como estando localizado do lado oposto ao cemitério cristão, do outro lado do lago, na entrada de Lubien. Eu esperava encontrar o túmulo do meu bisavô Shlomo e transportá-lo para Israel, talvez para Efrat. Mas não havia nenhum cemitério judaico do outro lado; havia apenas um estacionamento.
Entramos na pequena cidade, que consistia de mais ou menos 300 famílias. Havia barracas num mercado ao ar livre, ruas sem pavimentação, cavalos, bicicletas, velhas casas de madeira e uma igreja impressionante. Greg me deixou no carro, tomando conta de minha bagagem, e saiu à procura de alguém que se lembrasse da família Kowasky. Um residente polonês o encaminhou a outro, até que a filha de uma senhora de 91 anos, que sempre morara perto dos judeus, disse estar certa de que, se voltássemos dentro de uma hora, quando sua mãe já estivesse acordada, ela poderia nos ajudar. No ínterim, exploramos Lubien e, antes das 9 horas, uma senhora idosa com um rosto animado e olhos sorridentes estava ansiosamente nos esperando na porta de sua casa. “Pan Kowasky, Pan Kowasky”, ela me saudou, curvando-se enquanto falava feliz e me fazia entrar em sua modesta casa. A mesa estava posta com bolos e biscoitos e Greg traduziu suas palavras em polonês que foram despejadas numa torrente amistosa.
“Claro que me lembro de sua família. Seu bisavô era o rabino dos rabinos (ela queria dizer que ele era o daian, ou melhor, o juiz da cidade). Ele era um homem muito velho quando eu ainda era uma jovem. Todo muno dizia que o anjo da morte havia se esquecido dele. Meu pai era o prefeito da cidade e, por isso, o rabino da cidade, o Rabino Petrofsky, e, para assuntos mais importantes, o seu bisavô, vinham muito à nossa casa. Vejo que o senhor não está comendo meus bolos. Vou lhe dar o que minha mãe costumava dar ao seu bisavô: chá num copo de vidro. Isto o senhor poderá beber.”
“Era uma comunidade judaica bonita na época em que sua família morava aqui. Eram 150 famílias judias e 150 polonesas. Burack era quem fazia as circuncisões dos garotos de 8 dias de idade. Sua filha era a esposa do Rabino Petrofsky. Zhilitowsky era o que batia na porta dos judeus para chamá-los para as rezas. Todos os homens judeus iam rezar de manhã cedo. Brystgowsky era o padeiro. Todos os judeus colocavam, nas sextas-feiras à tarde, seus cozidos em seu grande forno, onde ficavam até o almoço de sábado. Creio que chamavam o cozido de cholent. Nenhum judeu acendia fogo no sábado. Seu bisavô era um homem muito sábio, um grande juiz, mas ele insistia em trabalhar para ganhar seu pão. Até morrer, ele vendeu feno e aveia para os fazendeiros vizinhos. Sua filha mais velha se casou com um de seus alunos, um rapaz de Wlozlawek. Ele foi embora para a América e, até que ele mandou buscá-la e aos filhos, ela dirigiu uma pousada e um restaurante numa extensão da casa de seu pai. Era ali, do outro lado da rua, em frente à igreja.”
“A sinagoga era bonita. Em 1939, quando os nazistas vieram, todos os judeus – homens, mulheres e crianças – foram lá para rezar. Os nazistas incendiaram a sinagoga e não deixaram os bombeiros apagar o fogo. Não só a sinagoga, mas todo o quarteirão foi queimado, porque eram casas de madeira. A casa de seu bisavô sobreviveu ao fogo porque era do outro lado, como eu lhe disse, ao lado da igreja. Ela queimou mais tarde, depois da guerra, num fogo provocado por eletricidade. Mas ela foi reconstruída.”
“Todos os judeus foram levados e mortos. Os últimos Kowaskys eram alfaiates. Talvez algum tenha sobrevivido, mas a maioria foi morta.” 
“O cemitério judaico? Era do outro lado do lago, em frente ao cristão. Os nazistas o destruíram, reviraram toda a terra e levaram as lápides para serem usadas na pavimentação de seus campos de concentração.” 
Agradeci a gentil senhora Helene Michalak. Fiquei admirado com sua memória e satisfeito pela confirmação que ela me forneceu das histórias que alimentaram minha infância e deram origem à paixão de minha vida. Ela me deixou usar sua câmera e até me vendeu alguns filmes para que eu, ainda em transe, fotografasse Lubien. Em cada canto eu sentia fantasmas do meu passado (e gurus do meu futuro). O único momento em que não pude conter minhas lágrimas foi diante do solo árido na frente do lago na entrada da cidade, do lado oposto ao cemitério cristão. Cantei o El Malê Rachamim por meu avô e saí apressado.
Voltei para minha casa em Israel, triste e amargurado com o que havia sido perdido, mas grato pela memória. Viajei à Polônia para achar Lubien, para recapturar minha infância, para descobrir minhas raízes. Mas onde está Lubien? Compreendo agora que Lubien não está perto de Wrozlaw nem de Wrozlawek. De fato, Lubien não está mais na Polônia. Lubien está comigo e com meus netos israelenses aqui em Efrat, em Israel, e eu espero que esteja também nestas palavras, pelas quais tento fornecer mais alguns comentários à nossa eterna Torá.

*   *   *

INTRODUÇÃO

O universo dos comentários bíblicos revela um infinito número de segredos. Podemos dizer que a Bíblia – que contêm a sabedoria do que é Divino – pode ser comparada a um magnífico diamante, reluzindo simultaneamente com múltiplos brilhos e diferentes cores. Os vários matizes parecem se opor uns aos outros, mas, se observarmos todo o conjunto das luzes que emanam do diamante, começaremos a apreciar sua complementaridade e a perceber quão harmonioso é o conjunto que formam.
Analogamente, os sábios do Talmud compreenderam que em cada pronunciamento bíblico há muitas verdades possíveis, cada uma delas adicionando sua melodia única à magnífica sinfonia do conjunto, sintetizando não uma dissonância conflituosa, mas sim uma sagrada dialética:
“A Escola do Rabi Ishmael ensinou: ‘Como um martelo golpeando uma rocha’ (Jeremias 23:29) – assim como o martelo origina diferentes chispas, um único versículo bíblico traz à luz diferentes interpretações’.”
TB San’hedrin 34a

Assim sendo, a palavra chave de qualquer comentário bíblico que abrange diferentes interpretações para o mesmo versículo é PaRDeS (literalmente, pomar) que compreende: Peshat, o significado literal do texto; Remez, o significado simbólico; Derash, a explicação rabínica; e Sod, o significado oculto, o sentido místico do texto. A soma dessas interpretações compõem as “setenta faces” da Torá, que simbolizam as setenta nações do mundo e as setenta diferentes formas de encarar a vida, que refletem as múltiplas possibilidades de prospecção do significado da Bíblia e de compreensão – embora imperfeita e incompleta – do Divino.
Assim, a Bíblia tem a extraordinária habilidade de falar conosco simultaneamente com diferentes vozes. O mais notável é que, além de podermos escutar a voz do Eterno nos apresentando Suas determinações no Sinai há 4.000 anos, também conseguimos ouvir as vozes dos sábios do Talmud comentando o texto e as tradições. Eu ainda acredito que, toda semana, a Torá fala diretamente comigo sobre minhas preocupações individuais e comunitárias, sempre de forma relevante e inspiradora. 
O Talmud chama a Bíblia de micrá, cuja raiz (crá), em seu significado usual, é a mesma do verbo ler, pois a Lei Escrita é lida publicamente às segundas, quintas, sábados e nos dias de festa. Mas Israel Eldad, na introdução de seu livro “Reflexões sobre a Bíblia” (Heguionot Bamicra, Tel Aviv, 2001) sugere que o termo provêm da mesma raiz crá, mas que ele deve ser interpretado com o significado de “chamar”. A Bíblia nos faz um chamado – algumas vezes nos confortando e por vezes nos repreendendo; às vezes parecendo emanar de um passado distante e às vezes ressoando de um presente imediato –, mas sempre com o imperativo de que mudemos nosso comportamento e busquemos alcançar um nível mais elevado de moralidade e santidade. Na realidade, é esse o significado da bênção que deve ser pronunciada por aquele que é chamado à Torá: “Bendito sejas Tu, Eterno nosso Deus, Rei do Universo, que nos escolheste entre todas as nações e nos deste (tempo passado) a Torá. Bendito sejas Tu, ó Eterno, que nos dá (tempo presente) a Torá.” 
É precisamente pelo fato de a Torá ser, ao mesmo tempo, o documento escrito mais antigo e continuar a orientar a vida humana de modo atual e relevante, que podemos verificar que ensinar e estudar a Bíblia é o ponto de partida para as glórias de nossa tradição. Múltiplas possibilidades de interpretação surgem continuamente e tornam contemporâneo o significado dos mandamentos e a relevância das várias narrativas, sempre permitindo aos indivíduos de cada geração descobrir motivações significativas, tanto éticas como espirituais, nos aspectos e rituais do judaísmo. Cada um descobrirá seu peshutó shel micrá – seu próprio significado literal do texto, que adquire todo dia um significado renovado. (Ver “Introdução ao Comentário do Rashbam” de M. Rosen e sua citação da carta do Rashi ao seu neto.)
Quando estudo as páginas da Torá e seus comentaristas, muitas vezes murmuro as palavras do salmista: “Se não me deliciasse com a Torá, minha aflição me faria perecer.” O Pentateuco, em especial, tem sido uma fonte de inspiração e conforto para mim. Quando eu estava planejando minha aliyá, a importância de viver em Israel clamava a mim de cada uma de suas páginas; durante a guerra do Golfo e as várias revoltas árabes que passamos, os versículos sobre como o Eterno endureceu o coração do Faraó adquiriram novo significado; quando vivencio as tensões humanas entre pais e filhos, o livro do Gênesis me provê conforto e inspiração. Meus esforços para compreender com mais profundidade alguns trechos da Torá refletem meus debates com a vida em si. A habilidade da Torá de falar com cada geração e com cada pessoa simultaneamente é o maior testemunho da sua Divindade. Considero um grande privilégio poder compartilhar as múltiplas verdades que busco na Torá a cada dia. E se as minhas palavras forem insuficientes, será somente por causa da pequenez da minha percepção ante a infinita sabedoria do Doador da Torá.


Educador de renome internacional, palestrante e escritor, o Rabino Dr. Shlomo Riskin recebeu de seu mentor, o Rabino Joseph B. Soloveitchik, sua ordenação rabínica na Yeshiva University e seu Ph.D. na New York University.
Suas extraordinárias contribuições tanto para Israel quanto para os judeus de todo o mundo tornaram-no uma das vozes mais importantes da ortodoxia moderna. Ele se destaca especialmente por seus programas educacionais inovadores e por seus programas de ação social baseados em sua visão especial do autêntico judaísmo, sensível às necessidades de cada ser humano e capaz de apresentar respostas a todas as preocupações universais.
Tendo por base esta filosofia, ele fundou e atua como reitor do Ohr Torah Stone Colleges and Graduate Programs, uma rede de instituições educacionais que emgloba o Instituto Superior para Formação de Rabinos e Líderes Comunitários e de Estudos Judaicos Avançados; o Programa de Treinamento para Advogadas – único no mundo –, para que mulheres possam atuar nas cortes rabínicas; o Centro de Apoio Legal para Agunot e o Programa de Hesder para Moças Religiosas, que visa habilitá-las a servir no Exército de Defesa de Israel. Além disso, criou um programa para que mulheres com deficiências possam passar um ano em Israel, e outro, para que judeus seculares possam vivenciar a beleza e a relevância da herança e da cultura judaica.
Além de palestrante muito conhecido, já publicou cinco livros, inúmeros artigos e monografias sobre temas judaicos contemporâneos, e mantém uma coluna semanal em jornais por todo o mundo. Nascido no Brooklyn, atua como Rabino-Chefe da cidade de Efrat, em Israel, onde mora como sua esposa Vicky e toda a sua família.
  • Opinião enviada em 15/12/2015 15:02hs por anônimo de São Paulo - SP.
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  • Comentários:
    Pena que só tem o Luzes da Torá> Gênesis... o livro é sensacionallll maravilhoso sem mais adjetivos. Aguardo os proximos volumes...
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